quinta-feira, 3 de março de 2011

Excluídos, sim, mas com canudo



(JN)
O que se exige à "geração à rasca" não é mais nem menos do que brilhantismo. Quem é "proactivo", criativo, flexível, arrojado, talvez singre. Quem não foi ungido com tais qualidades, perde o comboio.

Aforrar, sabe-se lá com que sacrifícios, para dar uma boa formação aos filhos, no pressuposto de que seria salvo-conduto para um futuro melhor. A mensagem, que passou de geração em geração, insuflou os pais de esperanças e as universidades de estudantes, impelidas a subirem notas de acesso até ao absurdo, para conter a pressão.

Com o tempo, multiplicaram--se no ensino superior gigantescas fábricas de ilusões. Dito de outra forma: produtoras de expectativas que o mercado de trabalho não conseguia satisfazer, por mais sebentas que os alunos engolissem. Porque o sistema não oferecia ao mercado o que ele queria. Ou porque o que ele verdadeiramente queria era gente formada de um sopro, com conhecimentos colados com cuspo, mais depressa disponível para engrossar filas de jovens a mendigar uma "oportunidade" a baixo preço.

Foi neste caldo de cultura que nasceu o chamado Processo de Bolonha. À boleia da nobre intenção de uniformizar a oferta formativa no espaço europeu, reduziram-se licenciaturas à mínima expressão, empurrando os alunos para mestrados que em muitos casos só servem para retardar o inevitável: a entrada no vasto contingente de jovens à procura de primeiro emprego.

Com o álibi da crise económica, a fasquia subiu ainda mais. Já não chega um currículo bem preenchido (há modelos bem feitinhos, disponíveis na net), nem uma pitada de experiência, quanto mais não seja na caixa do supermercado. Deixou de ser suficiente uma sólida formação ou qualificações específicas - até podem ser mal vistas (olha este, que vem para aqui armado em doutor!).

O que se exige a quem involuntariamente se tornou membro da "geração à rasca" não é mais nem menos do que brilhantismo. É só ouvir os conselheiros do costume recomendarem aos jovens vergados à precariedade que sejam "proactivos", puxem pela criatividade, descubram as virtudes da flexibilidade e, com arrojo, lancem o seu próprio negócio.

Quem é proactivo, criativo, flexível e arrojado, talvez - só talvez - venha a singrar na vida. Quem não foi ungido com tais qualidades, perde em definitivo o comboio. Estamos, a passos largos, a criar novos excluídos. Mesmo se detentores de canudo.

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E isto começa no ensino básico, digo eu...















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