quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Poema do alegre desespero

Motivado pelo blogue "De Rerum Natura", deixo o "Poema do alegre desespero", do grande professor e poeta, Rómulo de Carvalho ou António Gedeão. Segundo este blogue: " Sendo Rómulo de Carvalho professor, percebia claramente que o conhecimento tem valor, e estava consciente de que a função de quem ensina é transmiti-lo, fazendo-o renascer, fazendo-o servir... para que a herança da Humanidade possa ser preservada, revista, acrescentada."






Compreende-se que lá para o ano três mil e tal


ninguém se lembre de um certo Fernão Barbudo


que plantava couves em Oliveira do Hospital,


ou da minha virtuosa tia-avó Maria das Dores


que tirou um retrato toda vestida de veludos


sentada num canapé junto de um vaso com flores.


E até mesmo que já ninguém se lembre que houve três impérios no Egipto


(o Alto Império, o Médio Império e o Baixo Império)


com muitos faraós, todos a caminharem de lado e a fazerem tudo de perfil,


e o Estrabão, o Artaxerxes, e o Xenofonte, e o Heraclito,


e o desfiladeiro das Termópilas, e a mulher do Péricles, e a retirada dos dez mil,


e os reis de barbas encaracoladas que eram senhores de muitas terras,


que conquistavam o Lácio e perdiam o Épiro, e conquistavam o Épiro e perdiam o Lácio,


e passavam a vida inteira a fazer guerras,


e quando batiam com o pé no chão faziam tremer todo o palácio,


e o resto tudo por aí fora,


e a Guerra dos Cem Anos,


e a Invencível Armada,


e as campanhas de Napoleão,


e a bomba de hidrogénio,


e os poemas de António Gedeão.


Compreende-se.


Mais império menos império,


mais faraó menos faraó,


será tudo um vastíssimo cemitério,


cacos, cinzas e pó.


Compreende-se.


Lá para o ano três mil e tal.


E o nosso sofrimento para que serviu afinal?

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