terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Sozinhos em casa



Publicado dia 06/01/2013
PAULO BALDAIA (dn)


O primeiro-ministro e o ministro das Finanças têm de perceber que esta ideia que começa a generalizar-se não lhes é favorável. Nem a eles nem ao País. O problema nunca é o resto do mundo, mesmo quando nos sentimos cheios de razão. Se todos os outros não nos percebem, podemos ter a certeza de que estamos a explicar-nos mal. Ou, pior, a fazer mal.

A mensagem de Cavaco Silva, a intervenção de Durão Barroso, as declarações de Paulo Portas, o artigo de Mota Amaral, a opinião de Pinto Balsemão, para falar apenas de personalidades do centro-direita que falaram esta semana, criam a ideia de que Passos Coelho e Vítor Gaspar estão isolados no modo como olham para o País.

Já não se ouvem apoios públicos à trajectória do Governo, mesmo que nenhuma das personalidades referidas conteste a necessidade de cumprir o memorando ou defenda a reestruturação da dívida. Em todos se percebe que cai mal a ideia de que o Governo se orgulha da austeridade que nos foi imposta, desvalorizando o impacto social.


A verdade é que uma crise desta dimensão necessita de uma dose de confiança extra. Daí que a comunicação não seja, neste contexto, uma mera performance para melhorar níveis de popularidade. Neste momento, comunicar bem é fazer política ao mais alto nível. Não venceremos a crise, não nos servirá de nada a austeridade, se não formos capazes de recuperar o consenso social e político que construímos quando chamamos a troika. Temos de estar juntos para pagar a dívida, mas também para fazer crescer o País.

Há coisas que correm bem. Para falar das mais óbvias, convém recordar que a balança comercial está equilibrada e os juros da dívida fixaram-se abaixo dos famosos 7%. A verdade é que a percepção que os portugueses fazem desta situação de emergência é que o principal resultado das políticas do Governo é o de estar a deixar muita gente pelo caminho. Ou seja, também há coisas que estão a correr mal.

Melhorar a comunicação servirá para aumentar os níveis de confiança, mas ao Governo não lhe basta comunicar melhor. É preciso que escute com mais atenção os sinais de emergência social que chegam de todo o lado. Será um erro fatal confundir determinação com intransigência.

Vítor Gaspar é muito respeitado nas reuniões do Ecofin, Passos Coelho elogiado em Bruxelas, mas até por lá já começaram a soar as campainhas de alarme. A grande maioria dos portugueses está descrente, sente-se injustiçada e começa a não entender para que servem os sacrifícios. O primeiro-ministro e o ministro das Finanças podem estar muito bem acompanhados lá fora, mas estão cada vez mais sozinhos cá dentro. Não é bom para eles nem para nós, que precisamos de confiar no trabalho deles.

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