sábado, 20 de novembro de 2010

É tão chato haver coisas complicadas



O mundo era mais simples se tudo fosse mais simples não é? Se a simplicidade fosse a regra e a complexidade abolida.



Na página 28 do Expresso dá-se conta de um estudo que demonstra como os alunos portugueses falham bastante quando as palavras são acentuadas e quando os grafemas se afastam dos fonemas, como resultado da evolução da linguagem escrita e do seu afastamento da mera oralidade.


E isto é lamentado por um especialista, que fez o estudo e que denuncia os “caprichos” linguísticos que “dificultam a vida aos alunos”.


Realmente é uma chatice… Isto deveria evoluir tudo mas as msgs de sms e pco +. Pk s pcebe na mm e n da tanta xatice ao ppl.


E que tal se em História suprimíssemos todas partes mais complicadas, como aquela dos séculos minguarem até Cristo e crescerem depois? E se deixássemos de nos aborrecer com as tricas que levaram à independência de Portugal (contava-se que um dia tinha aparecido um rei formado ao domingo e que tinha criado o país, mandando a mãe às compras), limitavam-se os descobrimentos ao Brasil e aos PALOP para não ter de complicar as coisas, aboliam-se as guerras liberais por serem confusas e, por proposta do Rui Ramos e do Nogueira Pinto, fazia-se ligação directa entre a Monarquia e o Estado Novo. Certamente complicaria menos a vida aos alunos.


E em Matemática? Para quê complicar se a vida se a maioria vive com as quatro operações aritméticas básicas e umas quantas formas geométricas? Os sólidos ainda vá… mas equações? E, vai de retro, inequações? E probabilidades?


E em Ciências? Vamo-nos aborrecer com a classificação dos minerais e vegetais porquê? Porque não ficamos nos tempos pré-Lineu? Porque não chamamos pedras e metais a todos os minerais? Não é verdade? E a Geologia (ou a Geomorfologia, já agora), a quem interessa(m), se nem a(s) estudam para fazer o metro chegar ao Terreiro do Paço?


E muito se poderia fazer neste campo, aligeirando programas e currículos, no sentido de promover o Sucesso?


Quem nos manda querer que as crianças e jovens aprendam o que se foi descobrindo e sabendo ao longo dos últimos milhares de anos?


Não poderíamos ficar ali pelo Aristóteles, com a terra no centro do Mundo? E não é o Criacionismo uma teoria bem mais fácil de entender do que as darwinices? E até ficava tudo mais fácil em matéria de manual, porque existiria um único com tiragem comprovada e certamente poupança por existirem exemplares a passar entre gerações?


É que realmente esta coisa estranha de se ter de perceber que sucessão se escreve de uma forma e açucena de outra tem muito que se lhe diga (são os exemplos que aparecem no texto) e o especialista de serviço – Óscar Sousa, da Universidade Lusófona – tem toda a razão: isto é uma enorme complicação… e não é justo…

(Paulo Guinote)

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Dia Mundial do Xadrez

Uma jovem jornalista perguntou a Mikhail Tal:



- O que prefere: uma mulher verdadeira ou uma dama de xadrez?


- Depende da posição! - respondeu o ex-campeão mundial.

Denunciantes

(JN)

Os jornais anunciaram que, a partir de agora, é oficialmente reconhecida a nobre profissão de denunciante. Já tardava, é um facto. Mas pronto, antes tarde que nunca. Todos sabemos como a nobre arte da denúncia tem sólidas raízes entre nós. No tempo do senhor D. João III (e nos tempos que depois se seguiram...) muitos foram os que acabaram nas fogueiras da Inquisição, denunciados por vizinhos, familiares ou amigos, prontos a jurar que os tinham visto, por exemplo, "a ter comércio com o demónio", ou a "apartar-se da nossa santa fé católica, passando-se à lei de Moisés, vestindo camisas lavadas aos sábados, e jejuando às segundas e quintas, e não comendo carne de porco".


Sabe-se como a nossa santa fé lhes ficou eternamente grata.


Muito mais tarde, nos saudosos tempos do Estado Novo, a nobre arte da denúncia foi de novo reinstaurada. Uma legião de impolutos cidadãos, amantíssimos esposos e extremosos pais de família, encarregava-se de escrever cartas denunciando vizinhos, colegas de trabalho, familiares, amigos, ou vagamente conhecidos, jurando que os tinham ouvido falar contra a ordem estabelecida, denegrindo a figura do sr. presidente do Conselho, ou pondo em causa a nossa patriótica presença em África, ou ouvindo rádios a soldo de potências inimigas estrangeiras, ou acolhendo gente suspeita em suas casas pela calada da noite. Assim o juravam e assinavam, a bem da nação.


Sabe-se como a nação lhes ficou eternamente grata.


Como se vê, está-nos na massa do sangue.


Agora, se alguém suspeitar de corrupção - as autoridades ordenam que se denuncie imediatamente.


Com a net é uma limpeza, pena ela não existir nos tempos do senhor D. João III ou do sr. dr. Oliveira Salazar, bom jeito tinha dado.


Claro que há uma triagem - dizem.


Claro que há uma investigação - dizem.


Claro que os tempos são outros - dizem


Mas os denunciantes, lá no fundo, nunca mudam.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Profissão: "boy" ou a vida cor-de-rosa

(JN)

É uma história de proveito e exemplo e todos os pais a deveriam ler à noite aos filhos para que eles possam aprender que, ao contrário do que professores antiquados ainda ensinam na escola, não é com estudo e trabalho, ou com mérito, que se vai longe na vida.


Pedro era um petiz de palmo e meio e frequentava o ensino secundário. Vivia com o pai, funcionário do PS, numa casa da Câmara de Lisboa pagando 48 euros de renda.

Cedo percebeu que, se tirasse um curso superior, decerto acabaria como caixa de supermercado e, miúdo esperto, rapidamente deixou as aulas e se tornou, como o pai, funcionário partidário.

Estava lançado na vida.

Algum tempo depois rescindiu o contrato e, assim desempregado "por motivo de reestruturação, viabilização ou recuperação da empresa [o PS], quer por a empresa se encontrar em situação económica difícil", obteve do IEFP 40 mil euros de subsídios para a criação da sua própria empresa - que nem precisou de ter actividade - e do seu próprio posto de trabalho.

Meteu os subsídios ao bolso e arranjou "o seu próprio posto de trabalho" na Câmara de Lisboa a ganhar 3950 euros por mês como assessor político (o que quer que isso seja) de uma vereadora do PS.


O "Público", que traz a história do jovem Pedro, hoje com 26 anos e um grande futuro político pela frente, sugere que ela é ilegal e imoral.

Deixará de ser quando quem faz as leis fizer também a moral.

Não tardará muito..

Ir p'ro carvalho, mas sem v

CARLOS RODRIGUES LIMA (DN)


Quando um cabo da GNR, irritado com o facto de não ter conseguido uma troca na escala de serviço, se dirige ao seu superior, dizendo "não dá pra trocar, então prò c...", está a cometer um crime de insubordinação ou apenas a desabafar?

Este debate percorreu o Departamento de Investigação e Acção Penal (DIAP) de Lisboa e o Tribunal de Instrução Criminal, chegando, a 28 de Outubro deste ano, ao Tribunal da Relação de Lisboa, que encerrou o caso: o cabo não deve ser julgado, porque a expressão utilizada é um "um sinal de mera virilidade verbal".


Foi no dia 4 de Agosto de 2009 que, no gabinete do sargento da GNR que liderava um subdestacamento, o cabo solicitou uma troca de serviço com outro militar. Perante a recusa do seu superior hierárquico, tal como vem descrito no acórdão do Tribunal da Relação, o militar disse: "Não dá para trocar, então pró c..." E de seguida: "Se participar de mim, depois logo falamos como homens."


A situação em causa evoluiu para uma acusação pelo crime de insubordinação. Segundo uma procuradora do DIAP, "a palavra 'c...', proferida pelo arguido, na presença do seu superior hierárquico, de forma alguma, poderia constituir um mero desabafo, antes, indignado, pelo facto de o seu superior não permitir a troca de serviço, visou o arguido atingi-lo na sua honra e consideração".


"Então existe outro significado para a palavra, 'c...' em causa, dita naquele contexto, que não seja injurioso, ofensivo, de afronta, em relação à pessoa a quem é dirigida?", questiona a mesma magistrada.


Os juízes desembargadores Calheiros da Gama e o juiz militar major-general Norberto Bernardes tiveram entendimento diferente, mantendo a decisão do juiz de instrução que decidiu não levar o arguido a julgamento.


E para fundamentar tal decisão, os desembargadores fazem uma extensa análise da expressão "prò c..." que, no fundo, era o que estava em causa no autos. Concluíram que há contextos em que a utilização da expressão não é ofensiva, mas sim um modo de verbalizar estados de alma. Um pouco de história: "Para uns a palavra 'c...' vem do latim caraculu que significava pequena estaca, enquanto que, para outros, este termo surge utilizado pelos portugueses nos tempos das grandes navegações para, nas artes de marinhagem, designar o topo do mastro principal das naus, ou seja, um pau grande. Certo é que, independentemente da etimologia da palavra, o povo começou a associar a palavra ao órgão sexual masculino, o pénis."


Porém, continuam os juízes, "é público e notório, pois tal resulta da experiência comum, que 'c...' é palavra usada por alguns (muitos) para expressar, definir, explicar ou enfatizar toda uma gama de sentimentos humanos e diversos estados de ânimo. Por exemplo 'prò c...' é usado para representar algo excessivo. Seja grande ou pequeno de mais. Serve para referenciar realidades numéricas indefinidas ('chove pra c...'; 'o Cristiano Ronaldo joga pra c...'; 'moras longe pra c...'; 'o ácaro é um animal pequeno pra c...'; 'esse filme é velho pra c...')".


Mas há mais jurisprudência sobre a matéria: "Para alguns, tal como no Norte de Portugal com a expressão popular de espanto, impaciência ou irritação 'carago', não há nada a que não se possa juntar um 'c...', funcionando este como verdadeira muleta oratória."


Tendo presente tais considerações, mais o facto de se ter dado como assente que o cabo e o sargento - apesar da distância hierárquica - manterem uma relação de proximidade, sem muitas regras formais, a Relação de Lisboa decidiu não levar o militar a julgamento pelo crime de insubordinação.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Cem tribos continuam por descobrir no mundo

(por PEDRO VILELA MARQUES - DN)


Foi encontrada uma nova tribo no parque de Kugapakori Nahua Nanti, na selva amazónica do Peru. Este é um dos 15 grupos indígenas do Peru que vivem em auto-isolamento.

"É inacreditável que em pleno século XXI ainda haja populações que estejam à margem do mundo globalizado." O espanto do ministro da Cultura do Peru deve-se à descoberta de uma nova tribo no parque de Kugapakori Nahua Nanti, na selva amazónica do país. Mas a admiração de Juan Ossio será ainda maior por este ser apenas um dos 15 grupos indígenas do Peru que vivem em auto-isolamento e que nunca foram contactos pela "civilização". Segundo organizações internacionais no terreno, em todo o mundo, estima-se que cerca de cem tribos rejeitem contactos com o exterior. Estas são as pessoas mais vulneráveis do planeta.

Tal como a maioria dos grupos que ainda são desconhecidos, também o agora encontrado tem de fugir dos madeireiros e dos colonos que invadem o seu território. As provas da sua existência foram recolhidas durante uma expedição que durou mais de ano e meio - entre Janeiro de 2009 e Setembro deste ano - do Instituto Para o Desenvolvimento dos Povos Andinos, Amazónicos e Afro-Peruanos: lanças, flechas, recipientes de casca e bolsas feitas de fibra vegetal.

Os expedicionários, que criaram cinco postos de controlo nas fronteiras do parque, realizaram ainda vídeos e tiraram fotografias aos nativos e a pequenas cabanas feitas com ramos de palmeiras, estas já conhecidas das autoridades a partir de outros estudos.

Mas mais do que base para investigações, os postos de controlo visam sobretudo evitar que a reserva seja invadida por pessoas sem autorização, como madeireiros ou simples locais. Como aconteceu em Outubro na região de Madre de Dios, na fronteira com o Brasil, quando os indígenas feriram com uma lança um adolescente de 14 anos que invadiu o seu território.

Mais de um ano antes, novo exemplo dos perigos da colisão dos dois mundos, mas agora de sentido contrário: uma tribo peruana teve de fugir para o Brasil para escapar ao avanço dos exploradores de madeira.

"Todas estas pessoas enfrentam ameaças terríveis." A organização não governamental Survival International (Sobrevivência Internacional) alerta que, se nada for feito para as proteger, "estas tribos correm o risco de desaparecer completamente". Desde logo porque não têm imunidade contra as nossas doenças, o que, aliado à destruição do seu território, leva a Survival International a rotular estas populações como as mais vulneráveis do planeta.

"Tudo o que sabemos sobre estes indígenas isolados indica que eles procuram manter esse isolamento. Nas raras ocasiões em que são vistos, eles fazem questão de mostrar que querem ficar sozinhos", revela a ONG que luta pela preservação do território e estilo de vida de tribos em todo o mundo.

O que explica, por exemplo, a reacção de tribos como a que foi descoberta no ano passado, também na fronteira entre o Peru e o Brasil, que se mostrou hostil para com os invasores (ver caixa).

Entre as 15 comunidades peruanas que se mantêm complemente incontactáveis nas regiões mais remotas da selva amazónica estão as tribos cacataibo, isconahua, matsigenka, mashco-piro, mastanahua, murunahua, nanti e yora.

domingo, 14 de novembro de 2010

Emídio, o Cómico e Alberto, o Racista




«[…] em todo o território pátrio, hoje só resta um cidadão capaz de assim dedicar ao primeiro-ministro a devoção que dona Maria dedicava a Salazar. O seu nome é Emídio Rangel, e há que apreciar a frontalidade com que regularmente se expõe a jurar a honra e a competência do seu mentor espiritual. […]»


Eis, pois, o mundo às avessas, situação que define a perspectiva de Emídio Rangel em tudo, tudo, tudo o que envolve o eng. Sócrates. […]»

- Alberto Gonçalves, Sábado, 04.Nov.2010



«[…] Agora, tocou-me na rifa um tal Alberto Gonçalves, um escriba racista que passa boa parte do seu tempo a fazer vénias a Salazar, Hitler, Mussolini e a doutrinar sobre as virtudes das bíblias fascistóides. […]


Tudo visto e ponderado, eu já fiz umas coisinhas pelo País em que vivo, e o que é que fez o Albertinho do Norte, para além de se babar com a suas crónicas e perder tempo a lamber as botas dos directores dos jornais que caninamente serve e venera? * [...]


Oh Alberto, vá dar banho ao cão… ** e fique manso».



Emídio Rangel, Correio da Manhã, 13.Nov.2010


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Emídio Rangel no artigo acima (ver aqui) mostra o seu currículo de pretenso sucesso. Estranho que necessite de o fazer para se justificar.

O homem pode dar as piruetas todas que quiser que ninguém duvida de que aquilo de que ele acusa o Alberto Gonçalves é precisamente aquilo que ele faz ao Sócrates: lambe-botas rasteiro.

Não estranhem esta minha linguagem: é o menos que posso dizer educadamente a uma besta que, sem me conhecer, já me chamou hooligan

Um homem de convicções alheias

(Alberto Gonçalves - DN)

Se perguntam a Manuel Alegre pelo Orçamento, ele responde que o grave é que Cavaco Silva não se pronuncie a respeito.

Se perguntam a Manuel Alegre pelos juros da dívida pública, ele responde que o grave é que Cavaco Silva não tome uma posição.

Se perguntam a Manuel Alegre pelas horas, ele responde que o grave é Cavaco Silva não usar relógio a pilhas.




O grave, digo eu, é semelhante deserto opinativo ser candidato à presidência da República. É verdade que, numa rara aceitação dos seus limites, ele já avisou que um mandato basta para fazer o que quer. Acho que bastaria um dia.



Honestidade



(colhida no De Rerum Natura)

sábado, 13 de novembro de 2010

União Europeia...

Protesto, luto e reflexão


Anselmo Borges
(DN)

A sabedoria da história bíblica das vacas gordas e das vacas magras - armazenar no período da abundância para os tempos de dificuldade - há muito que foi esquecida entre nós. E aí está a crise, incalculável, na perplexidade, e sobretudo sem horizontes de futuro. Ninguém nos diz o que se pode razoavelmente esperar, depois de tanta crise e sacrifícios sem fim, e este é o perigo maior.


Há a crise mundial, uma imensa interrogação sobre o que ainda se chama União Europeia, a subordinação da política ao poder económico-financeiro. Entre nós, é tudo isto. Mas não só.

É certo que o País mudou, e nem tudo foi mau. A rede viária, por vezes até com excessos desnecessários - que interesses estavam em causa? -, permite comunicação rápida. Pôs-se fim ao analfabetismo. Há nichos de excelência na investigação e no ensino. Houve alguma mudança nas mentalidades, a convivência com outras culturas e religiões é boa. Grandes camadas da população viram o seu nível de vida melhorado.

Mas, depois, há perguntas que inevitável e desesperadamente se colocam, e todas, quando se pensa na situação presente e no que aí vem, convergem para esta: como foi possível chegar à beira do abismo em que nos encontramos?

Tem-se a sensação de que houve uma imensa ilusão, que desemboca, agora, na desilusão. Afinal, quando se devia fazer a transformação do aparelho produtivo, em geral não se fez. Pior: foram dados sinais aos portugueses de que estavam em vésperas de se tornarem ricos, de tal maneira que eles se puseram a consumir sem regra nem medida. Até se começou a dar reformas aos 50 anos! Os Bancos puseram os portugueses a engolir cartões de crédito, mesmo para fazer férias. Muitos pensaram que já nem era preciso trabalhar. Era evidente que a factura chegaria: como se poderia continuar a viver acima das posses?

Foram postergados valores como a honra e a família. Apesar dos tais nichos de excelência, a educação está envenenada. Que interesses foram satisfeitos, quando se permitiu a abertura indiscriminada de instituições de ensino superior? Quem se atreverá a dizer que a Justiça funciona? Quem porá termo ao roubo e à corrupção ao longo de três décadas? Como se chegou a tanta assimetria social? - mais de 20% da população trilham o caminho da pobreza, e muitos, da miséria, quando se sabe das remunerações escandalosas de gestores e da acumulação de reformas chorudas.

Em todo este tempo, com tantos Governos e políticos, quem se lembra de quantos verdadeiros estadistas? Serão os partidos instituições empregadoras? Nas campanhas eleitorais, há real propósito de esclarecer? É o trabalho pela causa pública e pelo bem comum que seduz a maioria dos políticos de carreira? Serão necessários tantos deputados e secretárias e motoristas? A quem servem as parcerias público-privadas e as consultadorias externas?

Fica-se atónito, quando se pensa, por exemplo, na desgovernação de projectos como o TGV, o aeroporto, auto-estradas, pagamento nas Scut. E as promessas? Ainda há meses, havia dinheiro para mais auto-estradas, TGV, novo aeroporto. E não haveria aumento de impostos. Estava tudo garantido por anos. De repente, cortes sem fim, um verdadeiro tsunami de impostos, que, para cúmulo, atinge sobretudo as camadas mais pobres. Será legítimo mentir em política ou ser incompetente? Mas que fique claro: as responsabilidades não são só das últimas legislaturas.

Anuncia-se uma greve geral. É preciso dar um sinal forte a todos, traduzido nestas palavras: protesto, luto, reflexão. Protesto contra a irresponsabilidade, mentira e injustiça. Luto, porque o essencial das decisões já vem de fora - Bruxelas, Berlim, FMI. Reflexão: para onde queremos ir?

Mas, quando se reflecte mesmo e se pensa na actual situação e, por exemplo, na teatralização inquietante da vida político-partidária, assalta-nos esta pergunta terrível: onde está a alternativa? Este é o drama e o perigo.

Eles lamentam

(JN)

Almeida Santos, presidente do PS, lamenta, referindo-se às medidas recessivas do OE para 2011, que o Governo, por ter feito "aquilo de que o país precisa" (palmas) "[vá] perder popularidade, [vá] perder votos, porventura [vá] perder o poder".

Há mais gente, a crer nos jornais, que também lamenta. Jardim, por exemplo, lamenta que o Estado seja "ladrão". E Manuela Ferreira Leite, lamenta que estejamos (sinal da Cruz) a viver "um espírito de PREC". Quando as coisas correm mal a factura acaba sempre, mesmo quase 40 anos depois, por cair em cima de Vasco Gonçalves...

O Estado é um "ladrão" e o assustador fantasma do PREC levantou-se do túmulo para assombrar Jardim e Ferreira Leite porque um e outro não poderão, a partir de Janeiro, continuar a acumular a cornucópia de pensões e salários que recebem do Estado. Ora, esclarece Ferreira Leite, "se recebem é porque trabalharam" e trabalham (o que, como se sabe, não acontece com os funcionários públicos nem com os idosos com pensões de miséria congeladas).

Nem Almeida Santos, Ferreira Leite ou Jardim lamentam, até onde é visível a olho nu, que, como denunciam os bispos, haja quem acumule "remunerações, pensões e recompensas exorbitantes" quando "ao lado estão pessoas a viver sem condições mínimas de dignidade". Isso, para Almeida Santos, é "aquilo de que o país precisa" e, para Ferreira Leite, um "tratamento inevitável". Não é caso para lamentos.

Os mercados zombeteiros


Parece que os mercados andaram a gozar com o nosso Ministro das Finanças. Ele disse que o limite eram os 7% de juros e logo os mercados esticaram a corda até esse limite. E andou o ministro a cortar salários, a reduzir pensões, a retirar abonos, a limpar subsídios e a aumentar impostos para compadecer os mercados, e os mercados, nada. Puseram-se no gozo.



E veio o nosso Presidente pedir para não afrontar os mercados, e vieram os nossos milhentos Nóbeis em economia explicar o comportamento dos mercados, vieram os jornalistas perdoar-lhes as diatribes, vieram os políticos prescrever receitas para os acalmar, até os nossos juízes abriram os olhos para ver os mercados, e nem sequer o Ministério Público os acusou. E os mercados, nada. Gozaram com todos.


A divindade anda desenfreada porque tem amigalhaços poderosos. As bocas da senhora Merkel ajudam imenso e o senhor Sarkozy diz que sim. Ninguém tem culpa dos traumas de infância da senhora Merkel e dos amores do senhor Sarkozy, ambos nas tintas para o poder dos Estados e cada vez mais rendidos à volúpia do Mercado. E o Deus Mercado impera.


O problema é que essa divindade perante a qual ajoelhamos deu agora em gozar connosco. Com isso, desceu do altar e mostrou que é tão humana como a senhora Merkel, o senhor Sarkozy ou o nosso Ministro das Finanças. Mas quando é essa divindade desenfreada, improdutiva e zombeteira que nos governa, é porque algo está podre no Reino da Dinamarca.

J. L. Pio Abreu (Destak)





sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Avaliação dos professores

Ainda há alguém que acredite nesta palhaçada?

O pseudo-PS, o pseudo-engenheiro José Sócrates e a pseudo-ministra da educação Lurdes Rodrigues intoxicaram toda a gente com mentiras (anda, Zé Sócrates, processa-me!) que não havia avaliação, que os culpados da ignorância quase geral dos portugueses eram os professores, etc..

E o que se vê, melhor quem vê para além do grande líder, é que o facilitismo está instalado e o que importa é ter diplomados, com oportunidade ou nem por isso para os mais velhos e com passeios ao colo para os mais novos. E quanto ao saber, à competência, ao conhecimento? Não interessa para nada! O que importa é ter o diploma final! Os alunos que sabem, que aspiram a bons empregos ou a continuar as odisseias familiares estão no ensino privado. Alguns pagam mais por mês do que o salário mínimo nacional (então, Zé, processas-me ou não?). Quantos exemplos queres?

Pois é, Zé! Achaste que os professores é que eram as bestas dos portugueses. Estiveste e estás muito enganado, homem! Agora precisavas deles para te ajudar a resolver as asneiras que fizeste! Sei que tu e os teus seguidores não gostam destas comparações, mas elas existem e são legítimas: Salazar também não queria um povo culto!

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Segurar a escada


Ideias são bens escassos e o seu preço andaria pela hora da morte acaso tivessem procura.


Ora Passos Coelho pertence a uma espécie dotada de um cérebro frenético que segrega permanentemente ideias como o fígado segrega bílis (a formulação de Cabanis tem séculos, mas é perfeitamente actual no caso de Passos Coelho). A sua última ideia, depois do colorido ramalhete de novíssimas ideias, também com séculos, da proposta de revisão constitucional, é prometedora: responsabilizar criminalmente os políticos - Passos Coelho pensa obviamente em Sócrates - que tenham gerido ruinosamente a coisa pública.


A perspectiva de ver metade do país, de presidentes de junta de freguesia a ministros e primeiros--ministros, metida na cadeia é, convenhamos, excitante, e capaz de levar ao êxtase o taxista que existe em cada português. Deve ter ocorrido a Passos Coelho quando, no Curso Rápido de Primeiro-Ministro que estará a frequentar nas Novas Oportunidades, alguém lhe falou de uma lei de 87, assinada por Cavaco como primeiro-ministro, sobre "crimes da responsabilidade de titulares de cargos políticos", designadamente em matéria orçamental.


Talvez, no entanto, Passos Coelho devesse recordar a sua cumplicidade não só no PEC II como, agora, no Orçamento para 2011 e pensar duas vezes antes de ter ideias. Porque, como dizem povo e Código Penal, tão ladrão é o que entra pela janela como o que segura a escada.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Desabafo inconveniente...

Alguém conhece um beneficiado pelas benesses do PS e do seu governo como, por exemplo, corte de vencimento, corte de apoio à família, corte de apoio à educação, etc. (e só não é mais por causa dos cortes do PS e do governo na saúde e já não há mercúrio-crómio para desinfectar esses cortes...)?

Alguém conhece um político do governo e do PS que esteja com dificuldades económicas (está bem! está bem! há aquele cromo de deputado que já deve estar na sopa dos pobres)?

Deve custar a ouvir a alguns ouvidos pseudo-virgens: é tão fácil governar com o dinheiro, cada vez menos, dos outros!...

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Novas oportunidades

David Marçal, no Inimigo Público

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

A sala dos professores


JN, 5 de Novembro de 2010




Eu sei que, hoje, ser professor é profissão de risco. Mas estranhei aquele letreiro, à entrada da sala dos professores, "É expressamente proibido os alunos incomodarem os professores durante os intervalos." Se calhar foi aquele "expressamente proibido", ou aquele "incomodarem", não sei, alguma coisa naquela frase me fez, de repente, reviver os meus 20 anos, quando trabalhei com o prof. Calvet de Magalhães - um dos grandes pedagogos deste país.

Era director da Escola Francisco Arruda, um modelo único de experimentação de metodologias e de integração na comunidade.

Aos sábados, abria as portas da escola - e ela enchia-se de miúdos dos bairros de lata ali em volta, que sabiam que naquele dia tinham ali à sua disposição gente que lhes contava histórias, ou artesãos que lhes explicavam os seus ofícios, ou música, ou ateliers de modelagem, ou xadrez.

Foi no "Diário de Lisboa" que conheci o prof. Calvet de Magalhães, a organizar "O Natal Visto pelas Crianças" - um concurso destinado a todas as escolas do país, com uma aceitação que se traduzia em caixotes e caixotes de trabalhos que as escolas mandavam.

Eu estava então a iniciar-me no jornalismo, e dava-lhe o apoio necessário.

Um dia, de repente, o prof. Calvet de Magalhães disse-me: "Sábado vais ler histórias aos miúdos da minha escola". Passei aquela semana em pânico (estava tão longe de um dia vir a escrevê-las!) e nunca esquecerei aquela sensação de me ver em cima de um palco diante de um salão a abarrotar de malta da pesada...

Mas aguentei-me.

E todos os sábados lá voltava.

Foi nesses anos que entendi o que era ser professor. A dedicação, a disponibilidade permanente ("a porta do meu gabinete nunca se fecha, porque nunca sabemos quando um miúdo precisa de nós"), o gosto pelo trabalho que se faz, até o sentido de humor: uma sineta, à entrada da escola, avisava: "Se o progresso falhar, lembrem-se de mim"

Lembrei-me de tudo naquele dia, ao ler o aviso na sala dos professores.

E tive muitas saudades do prof. Calvet de Magalhães.

SEXO E PODER


(Ruby Rubacuore, alias Karima El Mahrou)


O jornal El País de 24 de Outubro, com base no recente Relatório da Economia Mundial do FMI, divulgou a nossa posição no ranking mundial do crescimento económico (medido em percentagem de aumento do PIB) na década passada. Em 180 nações, o nosso lugar é o antepenúltimo (com 6,5 por cento), só ficando atrás de nós a Itália (2,4 por cento) e o Haiti (-2,4 por cento, o único que decresce). Um artigo intitulado "A década perdida de Itália e Portugal" informava que a dívida pública portuguesa ronda os 80 por cento do PIB ao passo que a de Itália se aproxima dos 130 por cento.

Piores que nós parecem, portanto, estar, a avaliar por esses indicadores, os italianos. Mas estarão preocupados com isso? Bem, o assunto em Itália, por estes dias, não é a economia, mas sim a vida sexual do primeiro-ministro Sílvio Berlusconi. Funciona como uma cortina para tapar a crise. Já tinha havido uma sua relação mal esclarecida com uma menor de Nápoles, que lhe custou o divórcio (a esposa censurou os “pais que oferecem as suas virgens ao imperador”). E já tinha havido uma relação bem esclarecida, esclarecida até demais, com uma prostituta de luxo de Bari, a quem Il Cavaliere não se coibiu de recomendar técnicas sexuais. Mas agora foi anunciado o caso de uma menor de origem marroquina, Karima El Mahroug, refugiada na Sicília, que, tendo rumado ao Norte em busca da fama que só a televisão e a moda podem dar, acabou por entrar na rede que alimentava as casas do chefe de governo de Itália e por participar em festas que a própria designou como bunga-bunga referindo-se a orgias rituais africanas. Pelos escritos dos autores clássicos sabemos que Nero e Calígula terão cometido os seus excessos. Pelos jornais de hoje sabemos que Berlusconi os quer ultrapassar.

O escândalo que enche as bocas do mundo mostra que a mistura de sexo e poder é, em certas proporções, explosiva. Ora vejamos.A marroquina, de nome artístico Ruby, viu-se em apuros financeiros, apesar de ter sido paga com dinheiro e jóias pelas suas visitas à casa de Berlusconi em Milão, e terá roubado uma companheira brasileira. Tudo não passava de um mero caso de polícia, que estava a ser tratado na esquadra, quando um telefonema do próprio primeiro-ministro exigiu a libertação da detida, alegando que ela era sobrinha do presidente egípcio Mubarak. A jovem, apesar de estar em situação ilegal, não tardou em ser libertada, tendo sido entregue a uma pessoa de confiança de Berlusconi. A justiça procura agora averiguar os factos. Instado pela imprensa a esclarecer, o chefe do governo italiano não esteve com papas na língua ao comentar: “É melhor gostar de mulheres bonitas do que ser gay”. E admitiu ter ajudado a garota. Não é preciso saber muito de história para reconhecer que, no que respeita aos costumes, há um recuo relativamente aos antigos imperadores, que tanto gostavam de mulheres como de rapazes bonitos. Mas ressalta a retórica política: Berlusconi já tinha dito que quem não era por ele era contra Itália, agora diz que quem não é por ele é homosexual.

Portugal tem, na economia, óbvias parecenças com Itália. Tem-nas decerto, além da estagnação do PIB e do crescimento da dívida, nas assimetrias regionais (em Portugal a diferença é mais entre o Litoral e o Interior do que entre o Norte e o Sul, para já não falar do desmesurado centralismo da capital) e na corrupção ao mais alto nível (um deputado do PS revelou que o chefe de gabinete do secretário-geral do partido lhe ofereceu um cargo bem remunerado numa empresa pública a troco da desistência numa eleição). Mas na mistura de sexo e poder não conseguimos competir. O Presidente do Governo Regional da Madeira, talvez o político nacional mais parecido com Berlusconi, desfila mascarado no Carnaval, mas não faz, que se saiba, festas bunga-bunga. É certo que há escabrosas histórias sexuais no futebol, mas o Presidente do Porto, a quem não faltam semelhanças com o Presidente do Milão (Berlusconi, para quem não saiba), não tem a mesma ambição política. A nossa situação é má, mas podia ser pior...

Carlos Fiolhais (in Público e De Rerum Natura)

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Amigos para sempre



Eu também viabilizo o Orçamento porque ele é, como a dra. Ferreira Leite diz (e quem não salta não é da malta), um testamento, perdão, um "tratamento inevitável".


Concordo com a redução dos salários dos funcionários públicos (até porque não sou funcionário público), com o fim ou diminuição das prestações sociais, sobretudo as que atingem os desempregados e os mais pobres (também não sou desempregado nem pobre), com o aumento do IVA, do IRS e do IRC (desde que isso não afecte os bancos nem a Mota Engil), com o fim das deduções fiscais, e com todas as mais medidas recessivas, pois isso agrada aos "mercados" e fará o milagre da multiplicação do capital e do investimento estrangeiro, já que o capital e o investimento estrangeiro gostam de pobres e mal pagos e nós ainda não somos suficientemente pobres nem suficientemente mal pagos.


E se os "mercados" estiverem a ouvir que saibam que, como quer a dra. Ferreira Leite, "somos todos amigos" de peito, desempregados, pobres, idosos com pensões congeladas, crianças sem leite e sem Abono de Família, o eng.º Sócrates, o dr. Teixeira dos Santos, a própria dra. Ferreira Leite e os 4 Cavaleiros do Apocalipse, os drs. & engºs. Salgado, Faria de Oliveira, Ferreira e Ulrich, e muitos mais, "tantos que nunca pensei que a morte tivesse levado tantos". Ouçam, "mercados", somos nós, de mãos dadas, a cantar: "Fui ao Jardim da Celeste, giroflé, flé, flá".