terça-feira, 29 de junho de 2010

Portugal perdeu... ou talvez não!

Agora que Portugal foi (bem) eliminado do Campeonato do Mundo de Futebol e nos deixou menos distraídos, convém não esquecer que:

-Sócrates continua a ser o 1º ministro de Portugal!

-A culpa da chamada crise não é de ninguém, muito menos do supradito Sócrates!

-Nós, os pobres e os da dita classe média, vivemos cada vez pior e não consta que os sacrifícios que nos são impostos sejam universais (por exemplo, não consta que o supradito Sócrates tenha que fazer muito cálculo mental para ver se o seu dinheiro chega ao fim do mês…)!

-A alternativa que se avizinha não parece melhor. Pedro Passos Coelho parece pouco preocupado com os pobres e os da dita classe média.

-E, no entanto, quer Sócrates, quer Passos Coelho, estão onde estão com o voto livre (graças a Deus!) dos portugueses. Pois… a esmagadora maioria dos que votam nestes dois artistas são os que mais sofrem com as suas políticas…

-Não é politicamente correcto e o inarrável Santos Silva se, porventura, ler esta mensagem, dará urros, mas Hitler também ganhou democraticamente as eleições (desculpem, mas eu não gramo o Santos Silva há muitos anos: nunca lidei muito bem com os meninos queques do Porto…)

-Pois é! E que alternativas temos nós?

terça-feira, 22 de junho de 2010

Democracia?!

É certo que os partidos A e B obtiveram resultados eleitorais que lhes permitiram eleger um número confortável de deputados embora sem maioria absoluta.

A minha grande dúvida neste momento é: vivemos numa democracia=governo do povo?

Será que somos todos masoquistas para votar em partidos que proclamam o nosso bem estar em troca do nosso voto e depois ficamos todos (desculpem, mas só me ocorre uma palavra começada por F) ... porque eles não querem saber de nós?...

Vivemos ou não numa democracia?

domingo, 20 de junho de 2010

Morreu José Saramago. E depois?

As mais altas figuras do Estado não vão participar nas cerimónias fúnebres de hoje.
Porque se não o admiravam em vida, não é depois de morto que devem aparecer no retrato.
Pode haver quem ache que é mesquinho, mas eu acho que é coerente. Afinal, na inversa, duvido que Saramago fosse a algum dos funerais destas personagens/personalidades.
Isto disse o Paulo Guinote, de que sou fiel seguidor sem rede social.

Descobri Saramago com o “Memorial do Convento”, absorto com o frasco das vontades de Blimunda e, talvez, porque o meu livro da 4ª classe tinha um desenho da “passarola”; eu, católico convicto, gostei de ler “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” e senti e vivi o ambiente do “Ensaio sobre a cegueira”. Depois cansei-me. Do escritor e do homem. Sem deixar de reconhecer as suas qualidades. Mais daquele do que deste.

Abominei o Sousa Lara quando o impediu de se candidatar a um prémio literário, mas não acuso (de quê?) Cavaco Silva de não ir ao funeral. Nisto estou com o Paulo Guinote.

Morreu José Saramago. E depois?

sábado, 19 de junho de 2010

D. José Policarpo está em campanha

por RUI HORTELÃO (no DN)
Selecção e realces de minha autoria


Devíamos ter desconfiado quando o ouvimos criticar tão frontalmente Cavaco Silva, pela aprovação do casamento homossexual.

Devíamos ter percebido que D. José Policarpo podia ter sublinhado a sua desilusão sem a centrar apenas num político tão católico como Cavaco e que, se não o fez, alguma razão terá.

Devíamos, à parte das movimentações de bastidores que surgiram, excluir a hipótese de as declarações terem sido precipitadas ou pouco reflectidas.

Quanto mais não fosse quando, na quarta-feira, indiferente ao aproveitamento político entretanto feito das suas palavras, o cardeal-patriarca voltou ao tema.

Desta vez já não personalizando no Presidente, é certo, mas lembrando que a Igreja é muito mais do que a sua hierarquia e que "os cristãos leigos (...) devem ser porta-vozes, no seio da sociedade, dos autênticos valores cristãos". Nova a crítica a Cavaco Silva? Parece pouco para tão firme e invulgar posição.

Só um objectivo maior do que o mero ataque pessoal ao mais católico dos chefes de Estado desde 1974 ou do que o desafio a Santana Lopes e a todos os que não gostam de Cavaco Silva pode justificar a determinação com que o cardeal-patriarca tem abordado o tema das presidenciais.

O presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, D. Jorge Ortiga, tentou arrefecer a polémica, mas o impacto - e consequências - das palavras de D. José Policarpo é irreversível. No mínimo, condicionará toda a acção futura de Cavaco Silva - mesmo depois de uma eventual eleição -, em particular na gestão dos temas mais delicados para a Igreja.

[...]

"A Igreja pode meter-se não na pequena política partidária mas nas questões que dizem respeito ao bem comum."

[...]

Fica assim confirmado que D. José Policarpo está em campanha. Mas não numa campanha recente, apontada contra Cavaco Silva ou contra o islão. O cardeal- -patriarca está, isso sim, em campanha por uma Igreja mais activa na defesa da moral e dos dogmas católicos, mesmo que nem sempre seguindo uma disciplina tão ortodoxa como a que Bento XVI tem tentado impor.

A direita católica dificilmente apresentará um candidato alternativo a Cavaco Silva e só por milagre conseguiria derrotá-lo.

Mas isso é política partidária.

E a campanha de D. José Policarpo é teológica.

Além disso, já ganhou ao abanar a consciência dos "crentes envergonhados (...), políticos, intelectuais, profissionais da comunicação".

E, sendo os adversários Manuel Alegre e Fernando Nobre, ganhará também com a reeleição de Cavaco.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

M. A. Pina - À boleia da crise

Os empresários estão preocupados com a situação do país (os empresários nunca estão preocupados consigo, mas com o país) e querem "rever as bases da competitividade, nomeadamente os custos da mão-de-obra" e correr menos riscos para "contratar e despedir pessoas".

Que empresários são estes que querem ter lucro sem correr riscos?

E ser "competitivos" pagando menos e exigindo mais aos seus trabalhadores?

É sabido que Portugal é um dos países da Europa onde se trabalha mais e onde os custos laborais são mais baixos.

E sucessivos estudos internacionais demonstram que a baixa produtividade das empresas portuguesas resulta sobretudo da má qualidade da gestão e do deficiente planeamento e organização do trabalho.

Aqui, porém, os nossos empresários assobiam patrioticamente para o lado.

[...]

quarta-feira, 16 de junho de 2010

“Abyssus abyssum invocat” ("O abismo chama outro abismo"), Salmo de David, 1015?-975? a.C.

Excerto de um artigo de Rui Baptista no "De Rerum Natura":

[...] numa altura em que há um sistema de ensino que é tanto para jovens dotados de “massa cinzenta” como para mandriões com cabeças sem nada lá dentro.

Desta forma, sabendo ou não, todos os alunos passam de ano num sistema em que a massificação significa mediocratização, um sistema sem exames ou com exames que são uma fraude para os alunos aplicados ao mesmo tempo que são quebra-cabeças para os cábulas que nada sabem.

Uma passagem de olhos pelos enunciados dos exames de admissão aos liceus no ano de 1943 [...] demonstra que eram bem mais difíceis que os actuais exames do 9.º ano.

Gastar dinheiro e fazer perder tempo a professores e alunos com este simulacro de exames em época de crise, numa época que obriga a desumanos programas de austeridade das classes mais desfavorecidas, é um atentado a uma sociedade justa e democrática.

Com as "Novas Oportunidades" e as "Provas de Acesso ao Ensino Superior para maiores de 23 anos" é tudo um questão de (re)abrir umas tantas desacreditadas universidades privadas de papel pardo e lápis de bico rombo para Portugal apresentar uma percentagem de diplomas com a chancela de superiores mas com a qualidade de inferiores que deixarão boquiabertos os países honestos na formação da sua juventude.

É a esperteza nacional no seu melhor!

domingo, 13 de junho de 2010

DIÁRIO DE NOTÍCIAS OU DIÁRIO DO GOVERNO?

Tenho andado a adiar o meu dever de agradecimento aos donos do famoso DIÁRIO DE NOTÍCIAS pelas dezenas de exemplares que já me foram oferecidos, nas bombas de gasolina.

Não estava nada habituado a estas benesses.

Por isso fiquei meio desconfiado da bondade desta oferta quase diária, e tentei compreender os motivos profundos de tamanha amizade de um jornal de Lisboa por um simples e anónimo mortal como eu, ainda por cima nado e criado na longínqua província.

Fui lendo (aproveitando gulosamente a oferta…) e fui compreendendo: As notícias parecem ecos de teclados ministeriais, com mensagens subliminares do governo.

A última delas vem no jornal de hoje, domingo, dia 13 de Junho de 2010, e é uma prodigiosa insinuação aos lucros chorudos e pecaminosos dos professores que – fazendo fé na notícia – “ganham milhões a corrigir os exames”!!!

Ainda bem que li a notícia.

Assim fiquei, finalmente, a perceber um fenómeno estranhíssimo que me andava a perturbar o entendimento: É que se vêem cada vez mais professores de “Ferrari” e de “porsche”; grandes mansões e “TQuatros” em condomínio fechado, onde entram e saem professores e professoras do ensino básico e secundário;

Enquanto os jogadores de futebol, gestores e administradores deste país, se deslocam em pequenos méganes, ou de “trotinette”, e vivem em apartamentos exíguos sitos nos bairros periféricos das grandes cidades.

Por isso a partir de hoje, fica aqui a minha promessa:

Jornais DN de graça?

Só se for para forrar as gavetas do armário onde guardo a ferramenta e os sapatos nas lonas, lá na garagem; ou, se sobrarem alguns, para limpar os vidros do meu magnífico “ferrari”…

Cunha Ribeiro

Voltei...

Áurea Sampaio, na revista Visão no passado dia 9 de Junho:


"Outra linha definidora desta nossa "tragi-comédia" é o que se está a passar no ensino.

Como se não bastasse essa outra dimensão do problema, que é o facto de estarmos a desaparecer enquanto povo devido à baixíssima taxa de natalidade, quem nos governa só ajuda a que cada vez mais casais desistam da ideia de ter filhos.

Sem urgências nem maternidades e com cada vez menos serviços públicos de proximidade, fora dos centros mais populosos do litoral, as populações vão definhando.

Agora, foi anunciado o encerramento de mais de 900 escolas com menos de vinte alunos, quase todas do interior.

Eis uma medida que claramente brotou da mente de um daqueles génios incompreendidos que vagueiam pelas alcatifas do poder.

Em vez de remeter os génios à procedência e assim contribuir para a poupança, o Governo acolhe estas visões mesquinhas de curto prazo sem pensar no amanhã.

E o amanhã é um deserto, porque as pessoas não se resignam ao abandono e ao esquecimento.

Agora, já se percebe para que estão a ser construídas tantas auto-estradas: é para todos se virem embora mais depressa."

terça-feira, 8 de junho de 2010

Demagogia ou talvez não...

Falta de comida já afecta 95 mil crianças por dia (título do JN).

O Pe. Américo (da Casa do Gaiato) dizia que não se prega a estômagos vazios.

Agora como se ensina o 25 de Abril, a tabuada, as letras, etc., etc. a estas 95 000 barriguitas vazias?

Talvez o Magalhães tenha desviado o almoço, ou se consolem com as canetas do quadro interactivo... Antes de encherem com tecnologias as escolas e com dinheiro os bolsos dos Sá Coutos, etc. não era melhor resolver a maçada da fome das criancinhas?

Chamem-me demagogo, chamem...

segunda-feira, 7 de junho de 2010

A visão da Parque Escolar

Não, não penso que a opinião formal sobre os assuntos que respeitam à Educação devam estar reservados a quem tem o diploma em Pedagogia, mas penso que essa opinião deve estar reservada a quem tem informação sólida na área da Pedagogia.

Se se opina sobre aprendizagem ou sobre ensino ou sobre outro assunto qualquer é preciso estar-se a par da teoria e da investigação que o esclareça, com especial destaque para a que se tem por certo no momento.

É dessa informação que se retira a opinião.Isto é tanto mais verdade quanto as opiniões têm efeitos práticos, tocam a vida das pessoas, podendo beneficiá-las ou prejudicá-as.É assim na medicina, é assim na engenharia, é assim na educação.

Admito, pois, que uma pessoa formada em arquitectura possa ter uma opinião sobre educação. Mas, nas condições que referi e não noutras.Não foi por acaso que me referi a esta profissão, mas por causa das declarações sobre a educação escolar feitas por uma pessoa que a exerce.Entre as muitas ideias erradas patentes nessas declarações, caso o referido jornal não tenha cometido erros de transcrição, contam-se as seguintes:

- O ensino está a mudar, “hoje não se centra apenas no ministrar de conhecimento e competências básicas de professor para aluno”.

- A escola deve ser “descentrada da sala de aula, em que os alunos se espalham por espaços informais, com os seus computadores portáteis, cruzando-se com os professores na biblioteca e discutindo projectos".

Se a pessoa fosse uma vulgar arquitecta a trabalhar numa vulgar empresa, eu passaria à frente e não estaria, de certeza, a escrever este texto, mas acontece que esta pessoa é, nada mais nada menos, do que uma representante do conselho de administração empresa Parque Escolar, que, efectivamente, por conta do governo, meteu “mãos à obra” e pôs essas ideias em prática.

Ora, tais ideias revelam uma concepção absurda e insustentável de ensino e de escola.

Passo a explicar as minhas razões, que várias vezes já expliquei neste blogue:

- O ensino está a mudar como sempre esteve, ainda que, desejavelmente, mantenha o que lhe imprime identidade como actividade humana que é, e que o faz funcionar, de modo que os alunos aprendam.

E o que lhe imprime identidade e eficácia é precisamente o facto de o professor “ministrar” (sim, ministrar, no sentido de fornecer, proporcionar…) conhecimentos aos alunos e, nessa tarefa, estimular as suas capacidades cognitivas e levá-los adquirir princípios éticos e morais.

O ensino não tem de ir mais longe, porque o ensino é isto. Se os professores se conduzirem por esta concepção de ensino cumprem a sua função. Nobre função, acrescento, pois tem-nos permitido transmitir a herança civilizacional e ampliá-la.Por essa razão, o ensino não pode ser descentrado da sala de aula, que é o lugar privilegiado para os professores ensinarem e os alunos aprenderem. E isto porque os alunos não aprendem sozinhos nem com computadores, aprendem se e quando os professores ensinam bem, nos espaços e nos tempos adequado para isso.

Não basta os alunos “cruzarem-se” com os professores para aprenderem.

Chegada ao fim deste texto, não posso deixar de perguntar: de que valem as linhas que escrevi, que são baseadas na investigação sobre o ensino e a aprendizagem que tenho por correcta, se é esta "a visão que a Parque Escolar tem para o ensino em Portugal” e que está a aplicar em cada escola onde intervém?

(texto de Helena Damião, in De Rerum Natura)

sábado, 5 de junho de 2010

O triunfo do "eduquês"

Muito sinceramente, quando, aqui há tempos, alguém me falou do assunto pensei ter percebido mal e, portanto, pedi-lhe que repetisse.
O que alguém me disse, e que hoje está nos jornais, nos telejornais e na internet, foi o seguinte:

os alunos que tivessem tido insucesso no 8.º ano de escolaridade e que, por isso, estivessem a repeti-lo, completando 15 anos de idade, fariam, por auto-proposta, exames nacionais de Matemática e Português de final de 9.º ano, e exames ao nível da escola das restantes disciplinas, podendo, assim, transitar para o 10.º ano.

O que pensei ter compreendido mal nesta explicação foi a palavra INsucesso, que tomei por SUCESSO.
Efectivamente, o que percebi foi que um aluno, caso tivesse resultados muito acima da média, se destacasse em termos de aprendizagem, pudesse - como, aliás, virtualmente pode – passar para o ano seguinte. Isto é, lhe fosse permitido, mediante realização de exames, transitar para um nível de exigência que estivesse mais de acordo com as suas aquisições de conhecimentos.

A novidade estava, neste caso, no momento de transição, que seria a da passagem de ciclo.Mas não era assim, eu tinha sido bem informada:

de facto, os alunos com SUCESSO têm de percorrer todos os anos do ensino básico, enquanto os que têm INsucesso podem saltar um ano.

Não contabilizemos as questões de justiça e da imagem da mesma que são passadas aos adolescentes, bem como da função da escola, do valor do saber, do esforço e dedicação que a aprendizagem implica, etc., etc., sem eufemismos: estamos perante uma lógica… ao contrário! E não há argumento que a posso justificar, porque ela é perfeitamente injustificável.

Que melhor prova podemos encontrar para reconhecermos o triunfo do "eduquês"?

Helena Damião
(in De Rerum Natura)

Onde chega a miséria moral da esquerda jacobina que temos


José Manuel Fernandes – 4 de Junho de 2010

(retirado de blasfémias.net)
O texto completo pode ser encontrado em:
http://blasfemias.net/2010/06/04/onde-chega-a-miseria-moral-da-esquerda-jacobina-que-temos/

Excertos:

Quando José Sócrates, na RTP, afirmou com arrogância que não tinha de pedir desculpas a ninguém pelo aumento de impostos e cortes nas prestações sociais isso não traiu apenas o seu detestável carácter, antes surgiu como uma consequência lógica do posicionamento intelectual da velha esquerda jacobina.

[…]

O céu que caiu em cima da moleirinha atrevida do nosso primeiro-ministro há muito que estava carregado de nuvens, há muito que anunciava uma tempestade que os mais avisados tinham visto chegar. Não quis reconhecer que ela estava aí, talvez por acreditar genuinamente que as medidas do seu Governo, comprovadamente erradas e eleitoralistas, eram as melhores e as mais geniais.

[…]

Sócrates nunca sentirá que deve pedir desculpa, nem admitirá que se enganou: para ele o que corre mal é sempre efeito de conspiradores mal intencionados, como os “especuladores”, tudo o que corre bem é fruto da sua inspirada liderança. É também por isso que mente sem vergonha e nunca, ao longo da sua vida pública, e também da sua vida privada, se sentiu ou sentirá tolhido por qualquer escrúpulo ético. A sua relação doentia com todos os poderes que limitam o poder do executivo, desde os tribunais ao Parlamento, desde os jornalistas aos sindicalistas, é também filha de uma cultura política em que uns se têm por moralmente superiores, vendo todos os restantes como prisioneiros de interesses particulares. E o pior é que esta forma de estar na vida pública e na política é contagiosa.

[…]

Acreditam ser mais inteligentes, mais cultos e mais “abertos” do que os outros, e por isso devedores de apreço e consideração. Se não praticam a probidade, bem pelo contrário, acham que o seu “desinteresse” de princípio os autoriza a reivindicarem regalias extra.

[…]

Não surpreende por isso que, nos gabinetes ministeriais, sobrem os meios e se multipliquem os lugares. Não surpreende que, em ano de crise, esses gabinetes consumam mais dinheiro e que o maior aumento percentual nos seus gastos tenha sido nas rubricas de suplementos e prémios e nas despesas de representação. Como da mesma forma não surpreende que José Sócrates tenha embaraçado a nossa representação no Rio de Janeiro ao preferir ir jantar a um restaurante italiano da moda, deixando de fora dezenas de convidados da área da cultura (para “cultura” bastou-lhe a visita a Chico Buarque, mais uma vez pretextos para mentiras desavergonhadas). Como não surpreende que tenha ao serviço do seu gabinete nada menos de 12 motoristas…

[…]

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Agências de "rating"

1.6.10

AGÊNCIAS DE "RATING"
Democratizado por José M. Barros . 1.6.10

in http://democraciaemportugal.blogspot.com/2010/06/agencias-de-rating.html


O Poder financeiro mundial criou uns gabinetes de crise, capazes de escalonar as dívidas e até o valor de qualquer coisa, que mexa com as finanças mundiais.

Fazendo agora uma chamada histórica, os Templários, em tempos de demanda pelos tesouros de Jerusalém e de outros, de passagem, por exemplo em Portugal, tornaram-se os primeiros banqueiros mundiais, emprestando dinheiro a monarquias e até à Igreja católica. Contudo, o rei Francês, mais colérico, pretendendo livrar-se deles, das suas chantagens e das dívidas contraídas, decretou a fogueira para todos eles. Parece que alguns fugiram com o seu tesouro, mas deixando à sua sorte o grande mestre, ou melhor, a maior parte do corpo, porque a cabeça teve outro destino!

Terão vindo por Portugal, onde D. Dinis os acolheu e protegeu da fúria papal, mas terão deixado cá o seu tesouro?

Até Salazar ordenou a investigação, a coberto de obras em alguns monumentos! É que Salazar queria ser como eles, poupando e nunca contraindo dívida. Logo, eles trataram de minar este propósito.

Agora, governam Portugal e instrumentalizam os governos da Europa!A ordem é retornar o dinheiro, para outros grandes projectos.

Mandam aos senhores governantes que saquem do povo, a coberto da crise engendrada, na forma de um plano de austeridade!

Orson Wells, porque lhes deste a ideia? Não chegou pagarmos o filme?

Pois bem, as agências de análise financeira são mensageiros e arautos da nova ordem mundial, onde os pagantes serão escravizados para as ganâncias de uns poucos egoístas, cobardes anti-sociais, que mais parecem não pertencer à espécie humana.Humanos já não são!

domingo, 30 de maio de 2010

Comunidade

Vale a pena ver e ouvir

http://adversus-omnes.blogspot.com/2010/05/comunidade.html

Alberto Gonçalves (no DN)

[...]

A impunidade parlamentar

Desde tempos imemoriais que corre por aí a ideia de que a justiça portuguesa só condenaria certas criaturas se estas fossem apanhadas em flagrante e, a título de brinde, confessassem o crime por iniciativa própria e simpatia. Era boato. O caso do deputado Ricardo Rodrigues e dos gravadores da revista Sábado mostra que nem assim.

Recapitulemos.

O entretanto célebre sr. Rodrigues foi filmado a meter literalmente ao bolso os ditos gravadores e a fugir com eles. Não satisfeito, afirmou orgulhosamente à imprensa que, de facto, "tomara posse" dos aparelhos. De então para cá, tudo o que lhe aconteceu resume-se às palmas dos seus colegas da bancada socialista e a única sentença que ouviu saiu da extraordinária boca do líder da bancada Francisco Assis: "Ninguém o pode julgar."

Poder, teoricamente, até há quem possa. Mas, apesar da queixa da Sábado, a mera audição do sr. Rodrigues no DIAP depende pelos vistos do levantamento da imunidade parlamentar.

E no Parlamento, aliás o local do roubo, o julgamento político nem chegou a existir, por recusa de PS, PCP e Bloco.

Quase um mês depois, os gravadores continuam desaparecidos, pelo menos dos legítimos proprietários, e o sr. Rodrigues continua à solta em São Bento, onde apenas o CDS tentou arrancar-lhe, em vão, um pedido de desculpas.

Como o sr. Rodrigues, o episódio é pequenino.

Já a lição que ambos encerram não é.

Infelizmente, não adianta aprendê-la: o nojo adequado a uma classe política que tolera ou até abençoa a prepotência e o puro roubo enquadra-se, parece, na categoria do "populismo", um delito que se não dá cadeia também não dá direito a aplausos entusiasmados dos representantes da nação.

Pobre nação.


[...]


Uma aventura em Portugal

No exacto dia em que se anunciaram "cortes" na educação em nome da austeridade e em que uma comissão de inquérito concluiu que as encomendas do Magalhães foram ilegalmente atribuídas à empresa que o embrulha e vende, a dra. Isabel Alçada tirou as devidas ilações e agiu em conformidade: garantiu a encomenda de mais computadores à JP Sá Couto e prometeu o Magalhães aos alunos dos primeiros anos lectivos em Setembro próximo, no máximo.

No dia seguinte, ainda procurei nos jornais um desmentido ou uma errata. Nada. A errata somos nós.

sábado, 29 de maio de 2010

Eles comem tudo e não deixam nada!

Uma notícia da TVI, falando dos 80 anos que hoje teria o Zeca Afonso, avivou-me:

- a memória de sua prima Maria Fernanda Cerqueira, espero que ainda viva, grande professora de Matemática e grande mulher, autora de manuais, minha mestre sem alguma vez ter sido minha orientadora seja lá do que for. Dela recordo o invariável "Tenho que ir ao talho!..." no fim das sessões de trabalho.

- ligando ideias, a minha grande orientadora de estágio de Matemática, Maria do Sameiro Quinaz, a quem devo o pragmatismo de: "Saiba sempre o que quer fazer na aula e o que quer que os alunos saibam" e o óbvio "quero lá saber de planos feitos à máquina (estávamos em 1981!...), faça-os onde quiser e como quiser, mas siga o seu próprio modelo" e esta quase obsessão moderna (?!) de tudo reduzir a modelos estereotipados e, desculpem-me a franqueza "estupidificados".

-a, para mim evidente, onda de vampirismo que abunda em Portugal e a incapacidade cada vez mais evidente de lutar contra ela.

-a crescente intoxicação de todos sobre crises e sacrifícios que se pedem aos mais pobres (a classe média está a desaparecer: ou ainda não o notaram?)

-a mistificação de partidos que se dizem, um socialista e outro social-democrata, mas que se estão a marimbar para os pobres: sim! para os pobres!

-a memória dos Vampiros do Zeca Afonso. Hoje todos sabemos o nome deles. Mas acobardamo-nos ao partido, ao politicamente correcto, ao cómodo,...

Deixo-vos:

Eles comem tudo e não deixam nada!

http://www.youtube.com/watch?v=ZUEeBhhuUos

O fecho de escolas - o exercício do contraditório

(texto publicado por Ramiro Marques no seu blog Profblog)

O secretário de estado da educação, João Mata, confirmou ontem que o Governo vai fechar as escolas do 1º CEB com menos de 20 alunos, dando continuidade a um processo que começou em 2006 e que conduziu, nos últimos quatro anos, ao encerramento de 2300 escolas, quase todas localizadas em concelhos do interior do país.

João Mata justifica o fecho da seguinte forma:

Está em curso a concentração de alunos em centros escolares "dotados de melhores condições", com refeitório, biblioteca, salas de informática, espaços para ensino de inglês, música e prática desportiva. "Espaços que permitam a concretização da escola a tempo inteiro e que promovam uma efectiva igualdade de oportunidades".

O que João Mata não diz é que as DRE estão a pressionar os municípios para aceitarem o fecho de algumas escolas com mais de 20 alunos. É o caso da escola do ensino básico 2,3 de Alvega que já recebeu ordem de fecho tendo os pais dos alunos sido informados da transferência para escolas de Abrantes. A escola de Alvega não só não se enquadra na tipologia de escolas com menos de 20 alunos (tem mais de 100 alunos) como dispõe de instalações, espaços e equipamento de qualidade.

Ficaria melhor a João Mata se divulgasse a verdadeira razão do fecho de mais escolas de pequena dimensão. Essa razão é meramente financeira. Os mega centros escolares são, em alguns casos, grandes armazéns escolares onde coabitam crianças de 10 anos de idade com adultos de 18 anos de idade, sofrendo as primeiras um processo de despersonalização, anonimato e desumanização com consequências desastrosas para o bem-estar e o desenvolvimento pessoal e social.

Também não é verdade que as escolas de pequena dimensão tenham taxas de insucesso superiores às restantes. O que a literatura diz é exactamente o contrário.

A investigação conclui que as escolas de pequena e média dimensão têm menos problemas de indisciplina, oferecem ambientes mais seguros e geram mais satisfação entre professores e alunos.

João Mata faria melhor em ler este relatório de investigação sobre os efeitos positivos das escolas pequenas no aproveitamento escolar dos alunos: The Hobbit Effect.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

"Sacrifícios para todos"

(Manuel António Pina - JN)

Duas notícias de ontem dão conta da revolução semântica sofrida pela palavra "todos" quando usada, como fazem PS e PSD, na expressão "sacrifícios para todos".

A primeira é da Lusa: o presidente da Antrop anunciou que está a negociar com o Governo aumentos de 3 a 4% nos transportes já a partir de 1 de Julho. Com mais 1% do IVA isso significará, para "todos" os portugueses, mais de 4 ou 5% no preço dos bens essenciais.

Entretanto, os portugueses com emprego verão, com as subidas do IRS, diminuir os salários e os 730 mil desempregados e beneficiários do RSI ficarão, com a razia nos subsídios, ainda mais pobres.

A segunda é do "Correio da Manhã": os deputados, a quem, pois os "sacrifícios são para todos", haviam saído pela porta 5% dos vencimentos, verão agora entrar pela janela da AR aumentos de 25% para viagens, transportes e despesas diversas, designadamente "artigos honoríficos e de decoração".

É justo. Se "todos" vamos pagar mais pelo pão e pela água, porque não haveríamos de pagar também mais pelos nossos 230 (o máximo que a Constituição permite) deputados, que são bens não menos essenciais?

Quem pára a besta?

(Frases soltas retiradas de um artigo de De Rerum Natura)

Comentários e realces de Zé da Silva.

“A educação, objecto de tanto palavrório, passa moeda falsa: promete o mundo e não dá saber ou trabalho”
(Vasco Pulido Valente).


Passado um século da implantação da República vigora neste país o reinado do facilitismo na aquisição de diplomas académicos.

Chegou-se ao ponto de criar condições de acesso ao ensino superior sem ter sido feito um percurso académico anterior completo ou satisfeito um exigente exame ad hoc, bastando para tanto um cartão do cidadão com uma data de nascimento que cumpra os 23 ou mais anos de idade.

Ou seja, como escreveu, anos atrás, nestas colunas, o deputado do Partido Socialista, Vital Moreira, “a ideia de democratizar o ensino superior pela banalização do acesso e pela crescente degradação da sua qualidade não é somente um crime contra a própria ideia de ensino superior é também politicamente pouco honesta.” [Aposto que ele já está arrependido de ter escrito isto...]

A própria Universidade, bastião da cultura de um povo, foi tomada de assalto transigindo no seu papel como denunciou corajosamente Aníbal Pinto de Castro, professor jubilado de Letras da Universidade de Coimbra, dirigindo-se ao respectivo reitor Seabra Santos, numa cerimónia oficial: “Não destruam. Não cedam. Não tenham medo porque a Universidade não pode ser uma instituição de caridade. Para isso há os asilos e a Mitra. Não pode ser um hospital de alienados” (“Diário de Coimbra”, 27/11/2005).

Mas, ainda, mesmo num percurso académico “normal” nas camadas mais jovens dos nossos escolares não são criados hábitos de trabalho: passam sempre, e de qualquer forma, até ao 9.º ano de escolaridade.

Em defesa deste oásis pedagógico, num deserto de reprovações, escrevem-se teses académicas que servem quer os desígnios dos ocupantes dos cadeirões da 5 de Outubro, quer os interesses de pais que não gostam de ver os seus filhos sem aproveitamento escolar, eufemismo de “chumbo”.

[Quem se recorda do "Pão com Manteiga"?

-Fizeste o inquérito?
-Fiz.
-E os resultados?
-Péssimos.
-Faz outro.]


Teses que embotam o próprio raciocínio de quem as defende por simples convicção ou grande dose de oportunismo, criando a miragem do sucesso escolar para toda a gente mesmo depois de António Guterres, então primeiro ministro de Portugal, ter tido a coragem e a honestidade de numa entrevista televisiva (23.Outubro.96) ter afirmado que “há alunos do 1.ºciclo do ensino básico que saem sem saber fazer contas”.

O reducionismo às técnicas pedagógicas na concepção da formação e da avaliação dos professores foi criticado por Schulman (1986) e secundado pelo sociólogo italiano Francesco Alberoni (2010) : “Na verdade, a pedagogia que nivela tudo por baixo no intuito de esbater as diferenças tem como consequência tornar ignorantes milhões de pessoas e privilegiar aqueles que podiam ir para a universidade e para escolas de excelência com professores respeitados e programas rigorosos; é por essa razão que há cada vez mais pessoas a quererem uma escola mais séria, mais rigorosa, com professores preparados e mais respeitados”.

[...]

Mas porque a voz do povo é a voz de Deus, em derradeira réstia de esperança que se cumpra, pelo menos, o aforisma de que “água mole em pedra dura…”
Posted by Rui Baptista

Comentários a este artigo, ainda publicados no De Rerum Natura:

Fartinho da Silva disse...
Caro Rui Baptista,A tal réstia de esperança é, infelizmente, algo que eu não tenho, porque os interesses instalados não permitirão tal mudança enquanto não sentirem os seus lugares em causa... e isso só acontecerá quando a grande maioria dos pais exigir uma escola pública exigente, disciplinada e disciplinadora, centrada no seu core business, pragmática e que garanta a segurança física dos seus filhos; e quando esses mesmos pais exigirem exames nacionais exigentes, com consequências e rigorosos.Enquanto isto não se verificar, continuaremos a ter o lobby das "ciências" da educação a reinar e o populismo dos políticos (por razões meramente eleitoralistas) a cimentar este enorme disparate.

.lestat disse...
Concordo em pleno com o que é exposto e debatido...parece-me que somente resta distinguir o real facilitismo do que pode ser funcional (e muitas vezes confundido com facilitismo), realista e objectivamente importante, separando no ensino o que importa do que é acessório. É também triste verificar que muitos (inclusive os profissionais da área) confundam as coisas tornando de repente todo o ensino em facilitismo, colocando tudo e todos no mesmo "saco". Contudo, existe ainda quem reflicta sobre as questões realmente importantes e vá tentando por em prática aquilo em que acredita ser de valor para os indivíduos no futuro, seja do ponto de vista académico, sejam todos os outros aspectos que possam ser opção.Excelente artigo.Cumprimentos

Anónimo disse...
Que besta... virá a seguir?!... JCN

Rui Baptista disse...
Caro João Boaventura:O seu comentário deu ampla voz à Sociologia portuguesa no ataque cerrado ao "eduquês” (quando este tece criticas a teorias pedagógicos intemporais), julgando eu poder encontrar antítese nesta parte de uma entrevista do sociólogo italiano Albert Alberoni (2010) que reproduzo do meu post: “Na verdade, a pedagogia que nivela tudo por baixo no intuito de esbater as diferenças tem como consequência tornar ignorantes milhões de pessoas e privilegiar aqueles que podiam ir para a universidade e para escolas de excelência com professores respeitados e programas rigorosos; é por essa razão que há cada vez mais pessoas a quererem uma escola mais séria, mais rigorosa, com professores preparados e mais respeitados”.Sem qualquer espécie de chauvinismo, a partir daqui será possível fazer-se a necessária síntese que expurgue possíveis excessos de ambas as partes por se tratar de” oficiais do mesmo ofício”?Cordiais cumprimentos,


joão boaventura disse...
Nada é impossível de mudarDesconfiai do mais trivial, na aparência singelo.E examinai, sobretudo, o que parece habitual.Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar.Bertold Brecht

Anónimo disse...
Permitam-me, caros senhores, que lhes recorde que, já por alturas de 1970, numa reunião de directores e reitores do ensino secundário (técnico e liceal), ocorrida em Pinhel, no distrito da Guarda, o então Ministro da Educação, Prof. Veiga Simão, advertia para o risco de não tardar muito para estarmos a ensinar asneiras... pedagogicamente bem. Sou testemunha presencial. Parece que, de então para cá, vem ganhando foros de profecia... a sua clarividente advertência! Será questão apenas de substituir o termo "asneiras" por "vacuidade", suponho. JCN

domingo, 23 de maio de 2010

O PRINCÍPIO DO FIM DO EDUQUÊS?

[Texto de Guilherme Valente publicado no "Público" de hoje (versão ligeiramente ampliada)]:


Demoraram, mas são boas notícias! Afinal o doutor Daniel Sampaio (tem nome e respeito-o) também é um crítico do eduquês (ver Pública, 16/5/10). Apesar de se tratar, como escreve DS, de um grupo de intelectuais, cujo nome não refere, que «´sabem`tudo sobre a escola», da «pressa crítica» que diz terem, do seu «discurso pessimista», do «narcisismo solitário e redutor das suas opiniões», «de se considerarem os únicos que têm razão», DS partilha, afinal, críticas que fazem ao eduquês.

E isso é que importante!

E vão aparecer mais.

Não é novo na História. Pressinto que no final irá restar apenas a doutora Ana Benavente. Um mérito dela, talvez. «Sê tu próprio», exortava-se na Grécia Clássica.O resto do que DS escreve, sem conseguir iludir quem conheça o pensamento e a acção do tal grupo de intelectuais cujos nomes DS omite, é irrelevante e será, porventura, do foro das afecções que os psicólogos costumam resolver. Os médicos não estão imunes à doença.

Apenas umas breves notas sobre contradições e erros mais gritantes:

DS afirma estar com os professores, mas umas linhas antes atribuíra a responsabilidade da indisciplina às «hesitações dos docentes» (com amigos assim…).

Porém, em breve também nisso irá concordar connosco: na forma, no grau, na generalização como se manifesta, a indisciplina é um produto do eduquês.

É mesmo um instrumento ao serviço do seu projecto insensato. Uma táctica que também não é nova na História. Esta é, digamos, a «causa formal». A «causa eficiente» é a desvalorização do papel do professor, a sua desautorização, o seu desprestígio aos olhos dos alunos, dos pais e da sociedade, perpretados pelo Ministério e os seus «especialistas» Tudo ligado à desvalorização relativista do conhecimento e da sua transmissão, ao facilitismo, enfim.

Como pode haver disciplina se defendem e impõem que se aprenda a brincar?

Se vêem a indisciplina e, por isso, a suscitam, como revelação desejável de traumas e ressentimentos sociais?

A verdade é que o sentido do bem e do mal, a inteligência, o sentimento e o juízo de justiça, não são qualidades sociais ou de riqueza, são qualidades humanas, que os pobres também têm.

As crianças e os jovens não são insectos, como o eduquês as trata.

Estar ao lado dos professores é promover as condições para o ensino de qualidade que os realiza e dignifica. Pergunte-se aos professores.

E mais: não se percebe se DS reprova ou não a tolice ou o expediente das «competências»; se acha bem a «escola exigente, organizada e geradora de conhecimento e de progresso» (transmissora de conhecimento, precise-se).

Fala ainda na «exigente burocracia ministerial» - está a louvar ou a criticar a burocracia? -- que «fez com que predominasse o pessimismo». Não se percebe aonde quer chegar.

E -- fantástico, mesmo que seja tão tarde -- afirma que a «a escola deve garantir um mínimo de conhecimentos que possibilite aos jovens que não pretendem continuar a estudar a aprendizagem de um ofício que lhes permita um percurso de autonomia digna».

Ora, os tais intelectuais «narcisistas» não se têm cansado de propor isso desde há muitos anos (DS esteve ausente no estrangeiro?), mas de modo muito claro e coerente: uma via técnica-profissional, com dignidade, qualidade e exigência iguais às da via de acesso ao ensino superior, oferecida aos jovens por iniciativa e com o apoio criterioso das escolas, a tempo de evitar o abandono, as retenções, ou os diplomas mentirosos que não correspondem a qualificação nenhuma.

Uma via como existe, por exemplo, na Finlândia, sendo ali frequentada, aliás, pela maioria dos estudantes. A Finlândia, que gostam tanto de citar, mas citam quase sempre erradamente.

DS acusa esses intelectuais «redutores» de não apresentarem soluções. Não têm feito outra coisa se não sugerir soluções, desde logo mostrando o que é o eduquês . DS escreve como se fosse ele a ter proposto os exames sérios e universais e as vias técnico-profissionais, que agora diz defender.E que soluções avança DS? Repare-se na solução que dá para a indisciplina: «A disciplina só será alcançada com um esforço conjunto dos professores, alunos, e pais».

E o Ministério?

Pensei que acrescentaria: colocando os alunos e os pais no mesmo plano dos professores… Como se os alunos fossem iguais aos professores, mas não.

Um ensino «que inclui», diz DS? Com 40% de abandono escolar? Ouvi o Senhor Primeiro Ministro falar em 30% (deve continuar a ser, portanto, mais de 40%), como se isso, tanto quanto percebi, fosse um êxito. E com que qualificações reais sai do sistema a maioria dos que não o abandonam? Não conheço hoje na Europa sistema de ensino que produza mais exclusão do que este do eduquês.Atente-se na irresponsabilidade mais gritante: a aprendizagem da leitura e da escrita, os níveis de «iliteracia», palavra importada para evitar o termo português que toda a gente perceberia: analfabetismo funcional. Segundo o estudo comparativo mais recente, um estudo oficial, muito eduquês, aliás, na trapalhada nada inocente do seu conteúdo e da sua escrita iletrada, a percentagem de iliteracia (na verdade puro e simples analfabetismo, perguntem aos docentes) é em Portugal de 60%!!! Num País em que o analfabetismo é desde sempre a grande chaga, não seria a alfabetização real do País o grande desafio a empreender e a estar há muito vencido?

Continuo a pensar que o Primeiro-Ministro quis enfrentar o problema, como indica o facto de terem sido anunciadas algumas medidas acertadas, que há muito vínhamos propondo. Mas foram logo neutralizadas na sua concretização.

Veja-se, por exemplo, o que aconteceu com a avaliação: inventou-se um modelo absurdo, impraticável.

Provavelmente para distrair o País do essencial.

Fez-se muito, diz o doutor DS. Não fez. Fez-se apenas o que a mudança dos tempos impôs.

Não se aproveita nada? Não, não se aproveita nada. Quando não se consegue o mínimo, é preciso varrer tudo.

Ou melhor, aproveita-se apenas a resistência de grandes professores, as suas práticas, o seu exemplo.Grandes professores que resistem e continuam a salvar muitos alunos. Estive com Professores assim, recentemente, numa escola pública da Caparica, com professores e alunos que todos os dias enfrentam e vencem o delírio ou a insensatez do eduquês imposto pelo Ministério.

Tenho procurado explicar a natureza do eduquês, a essência do problema da educação em Portugal. Natureza que por ser impensável poucos compreenderam. E o eduquês pôde, assim, ocupar o sistema educativo, dominar as escolas de formação de professores, impor a ideologia e as teorias educativas que têm impedido a construção da escola que é imperativa para o progresso do País.

Quando acabará o delírio ou a insensatez?

Quem pára a besta?

Pessimista é quem desiste de lutar, quem se cala perante o mal, acabando, assim, por servi-lo. «Pessimistas», «redutores», «narcisistas», hoje os adjectivos são outros, mas o método velhíssimo. Argumentos, venham os argumentos e os factos.

Guilherme Valente