O presidente do PSD disse hoje, em Rio Maior, que, se não fossem as eleições presidenciais, estaria hoje a apresentar uma moção de censura ao Governo e não a discutir se deixava ou não passar o Orçamento do Estado (OE).
in DN
Claro! E se a minha avó não morresse ainda hoje era viva!
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
domingo, 10 de outubro de 2010
10 de Outubro de 2012: PEC VII
Estamos em 10 de Outubro de 2012. A Comissão Europeia, face ao caos instalado na economia da maioria dos países da comunidade, resolveu dar mais cinco anos a Portugal para reduzir o seu défice orçamental, dos actuais 19% do PIB, para os 10%, a nova meta da União. Foram igualmente reduzidas a metade as coimas que desde 2011 nos foram sucessivamente aplicadas por incumprimento das metas a que nos propusemos. Os fundos estruturais, esses, continuam cativos.
Entretanto, o primeiro-ministro falou ontem ao país, logo após o Conselho de Ministros ter aprovado o Orçamento Estado para 2013, já apelidado de PEC VII.
Tranquilizador, convincente, determinado, assegurou-nos que este será o último apertar de cinto. "2013, ou não fosse 13, será o ano da recuperação".
Tudo começará a melhorar. Para além do equilíbrio das contas públicas, com a tal descida de 9 pontos percentuais num ano, são variadas e optimistas as metas do executivo.
A dívida pública descerá de 300% para 250% do PIB.
O desemprego manter-se-á estável nos 25% da população activa. A recessão será menos grave que a do ano passado e só atingirá os -5% do produto.
A política salarial já dará um ar da sua graça. Ao contrário do corte salarial de 20% de 2011, a quebra deste ano não atingirá os 10%. Razoável, ao fim e ao cabo, desde 2009, os funcionários só ficarão a perder cerca de metade do seu ordenado mensal. Os subsídios de férias e décimo terceiro mês serão pagos em certificados de aforro reembolsáveis a 50 anos, contrastando com o reembolso a 75 anos do ano transacto.
A política fiscal será generosa. O IVA só subirá dos actuais 29 para os 31%.
Os transportes públicos já funcionarão 5 dias por semana, ao contrário das segundas, quartas e sextas do ano passado. Os hospitais só fecharão ao fim de semana e as escolas públicas à segunda e quarta-feira.
Quanto ao mais o país está tranquilo e abrem-se perspectivas de continuar a existir a estabilidade propícia ao renascer da esperança. Há dois dias, após um esforço diplomático de Luís Amado, foram proibidas pelas autoridades locais as manifestação de 50 mil jovens portugueses, licenciados desempregados, que trabalham como empregados de mesa nos aeroportos de Gatwick e Orly.
O reforço da polícia de intervenção nas áreas metropolitanas continua eficaz, evitando a sublevação dos bairros de lata que reapareceram nas cinturas suburbana de Lisboa e Porto.
Jaime Gama continua a presidir interina mas sensatamente aos destinos da República - recordamos que Cavaco Silva venceu com 2/3 dos votos, à primeira volta, as eleições presidenciais de Janeiro de 2011. Só que continua ainda a marinar no Tribunal Constitucional a providência cautelar de Ribeiro e Castro do CDS e o recurso de Francisco Lopes da CDU. O primeiro reclamando por Cavaco Silva ter sido muito brando com Sócrates, conquistando assim eleitorado à esquerda e o segundo protestando por Manuel Alegre ter exagerado na oposição a um Governo e a um primeiro-ministro que estavam em peso na sua Comissão de Honra. Não há drama, o Ministro da Justiça já nos tranquilizou. O diferendo estará esclarecido antes de 2016, data de realização das próximas presidenciais.
Finalmente, abre-se uma luz na frente parlamentar. Ontem em reunião do grupo parlamentar social-democrata, vários deputados, liderados por uma ex-líder, exigiram um voto favorável na votação do fim do mês, por forma a não descredibilizar mais o país perante a Europa e os mercados. Zeca Mendonça* - o 23º líder do PSD, pós Passos Coelho, Aguiar Branco, Rui Rio, Alexandre Relvas, Paulo Rangel, Macário Correia e Virgínia Estorninho, deu os primeiros sinais de recuo face à posição de exigência em que se encontrava.
UF!!! Porque será que sonhei com isto. Será que isto pode mesmo vir a acontecer?
*Zeca Mendonça - competente e leal relações públicas e assessor de imprensa das lideranças social democratas. Não merecia que essa "maldade" lhe acontecesse.
sábado, 9 de outubro de 2010
"Perdoai-lhes Senhor porque eles sabem o que fazem"
Os créditos da ironia deste título são de Sophia de Mello Breyner Andresen ("As pessoas sensíveis", in Livro Sexto). É que a cada dia que passa fica provado que nem PS nem PSD sabem o que andam a fazer. Excepto uma coisa: andam a jogar com a vida de milhões de portugueses com um claro objectivo: Poder. O que, mais do que irresponsável, é perverso.
José Sócrates está convicto: não governa com um orçamento que não seja o seu, nomeadamente que não contemple subida de impostos e corte de salários na Função Pública. Demite-se.
Pedro Passos Coelho está convicto: não aceita um orçamento que aumente a carga fiscal. E se o Governo bater com a porta, não está disposto a apanhar os cacos. Dito isto, tudo leva, então, a crer que vamos a votos. Eles irão, é certo, e nós, portugueses, ficamos a apanhar os cacos.
Se tivesse maioria, Sócrates poderia ter todas as convicções do Mundo. Mas está em minoria e aceitou governar nessa condição. Ao aceitar, sabia que cedência e negociação seriam palavras-chave do seu mandato.
A liberdade é um dos pilares fundamentais da democracia. Mas também o é o interesse nacional. Enquanto líder da Oposição, Pedro Passos Coelho tem toda a liberdade para não aceitar as "ameaças" do Governo. Mas tem de sair em defesa do interesse nacional.
E interessa a alguém que o país fique mais de um ano em coma induzido, à espera de eleições? A viver em duodécimos, tornando-se presa ainda mais fácil das agências de rating e dos investidores internacionais que engordam as suas contas bancárias à custa da nossa dívida? A perder a face perante a "fraterna" Europa?
E, nós, portugueses? Alguém se lembra de nós? Acham mesmo que vamos ter paciência para campanhas eleitorais, lavagens de roupa suja em praça pública e promessas que depois não se concretizam? Não, nós, portugueses, vamos andar de ábaco a fazer contas de dividir e, com sorte, de subtrair.
Como escrevera Sophia no mesmo poema: "'Ganharás o pão com o suor do teu rosto'/ Assim nos foi imposto/E não:/ 'Com o suor dos outros ganharás o pão.'". Triste realidade a nossa.
Os créditos da ironia deste título são de Sophia de Mello Breyner Andresen ("As pessoas sensíveis", in Livro Sexto). É que a cada dia que passa fica provado que nem PS nem PSD sabem o que andam a fazer. Excepto uma coisa: andam a jogar com a vida de milhões de portugueses com um claro objectivo: Poder. O que, mais do que irresponsável, é perverso.
José Sócrates está convicto: não governa com um orçamento que não seja o seu, nomeadamente que não contemple subida de impostos e corte de salários na Função Pública. Demite-se.
Pedro Passos Coelho está convicto: não aceita um orçamento que aumente a carga fiscal. E se o Governo bater com a porta, não está disposto a apanhar os cacos. Dito isto, tudo leva, então, a crer que vamos a votos. Eles irão, é certo, e nós, portugueses, ficamos a apanhar os cacos.
Se tivesse maioria, Sócrates poderia ter todas as convicções do Mundo. Mas está em minoria e aceitou governar nessa condição. Ao aceitar, sabia que cedência e negociação seriam palavras-chave do seu mandato.
A liberdade é um dos pilares fundamentais da democracia. Mas também o é o interesse nacional. Enquanto líder da Oposição, Pedro Passos Coelho tem toda a liberdade para não aceitar as "ameaças" do Governo. Mas tem de sair em defesa do interesse nacional.
E interessa a alguém que o país fique mais de um ano em coma induzido, à espera de eleições? A viver em duodécimos, tornando-se presa ainda mais fácil das agências de rating e dos investidores internacionais que engordam as suas contas bancárias à custa da nossa dívida? A perder a face perante a "fraterna" Europa?
E, nós, portugueses? Alguém se lembra de nós? Acham mesmo que vamos ter paciência para campanhas eleitorais, lavagens de roupa suja em praça pública e promessas que depois não se concretizam? Não, nós, portugueses, vamos andar de ábaco a fazer contas de dividir e, com sorte, de subtrair.
Como escrevera Sophia no mesmo poema: "'Ganharás o pão com o suor do teu rosto'/ Assim nos foi imposto/E não:/ 'Com o suor dos outros ganharás o pão.'". Triste realidade a nossa.
( JN)
A cantilena do malmequer
A cantilena do malmequer é a banda-sonora do PSD na discussão do Orçamento. Passos Coelho sabe o que quer, mas Passos Coelho também não sabe o que quer.
Viabiliza, não viabiliza, viabiliza, não viabiliza. A cantilena do malmequer é a banda-sonora do PSD na discussão do Orçamento de Estado (OE), de um partido que se move aos solavancos numa sinuosa auto-estrada de posições, dúvidas, esclarecimentos, "soundbites", ameaças e demais géneros de expressão dramática. Passos Coelho sabe o que quer, mas Passos Coelho também não sabe o que quer. É como se o líder da Oposição em Portugal padecesse de dupla personalidade. Ora o presidente do PSD que quer ser primeiro-ministro e, como tal, deve agir com responsabilidade; ora o líder da Oposição que anseia ser primeiro-ministro e, como tal, é obrigado a agir com tacticismo. Viabiliza, não viabiliza.
[…]
Mas de nada vale a Passos Coelho endurecer, agora, o discurso e voltar a desembainhar a espada que vai rasgar ao meio o que se previa ser um acordo entre os dois maiores partidos se, no final, for forçado a aceitá-lo, seja por imperativos patrióticos ou tão somente por vergar ante pressões externas.
[…]
Passos Coelho tem dois caminhos para acabar com a cantilena do malmequer. Opção A: aprovar um "mau orçamento" e ficar para a História como o líder da Oposição que caucionou uma estratégia que pode arrastar Portugal para uma recessão. Opção B: não aprovar o Orçamento e ser lembrado como o irresponsável líder da Oposição que cravou o último prego no caixão do país. Tic-tac, tic-tac.
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
quinta-feira, 7 de outubro de 2010
Um monumento de ignomínia
(VASCO GRAÇA MOURA)
A Primeira República portuguesa foi um monumento de ignomínia. As comemorações em curso não podem escamotear esse facto e deveriam proporcionar aos portugueses uma visão altamente crítica desse período da nossa história. Historiadores como Vasco Pulido Valente e Rui Ramos já o têm feito e bem. Mas nunca será demais insistir.
Tem sido frequentemente observado que, na monarquia constitucional, o liberalismo foi abrindo a porta a uma dimensão republicana. De facto assim foi. A partir da estabilização ocorrida em meados do século XIX, viveu-se em Portugal uma era "republicana" de tolerância e de fruição das liberdades que só havia de extinguir-se pela força em 1910. Isto, apesar de todos os problemas que o constitucionalismo português foi tendo, da fragilidade do Estado e das suas instituições a uma catadupa de situações escandalosas e insustentáveis, passando por políticas erráticas, incompetentes e contraditórias, crises políticas e sociais, buracos financeiros insolúveis, corrupção, tráfico de influências, caciquismo, analfabetismo, atraso crónico e generalizado face à Europa e outras maleitas graves.
A monarquia constitucional acabou por cair de podre. Afundou-se no fracasso geral das instituições e no desprestígio mais completo dos partidos. Perdeu o pé no entrechocar das rivalidades, despeitos, ajustes de contas e interesses inconfessáveis dos grandes figurões de um regime em que os republicanos já se encontravam instalados por "osmose" pacífica havia muito, enquanto a tropa, quando não conspirava, ia assobiando para o lado. Tudo isso foi assim. Mas nunca a monarquia constitucional em seis décadas cometeu crimes comparáveis aos que a República praticou em meia dúzia de anos.
As comemorações do centenário da República têm de falar desses crimes. Eles foram cometidos sob a batuta de uma das figuras mais sinistras da nossa história. Graças a Afonso Costa e aos seus apaniguados organizados em milícias de malfeitores, a Primeira República, activamente respaldada pela Carbonária (e, mais tarde, por uma confraria de assassinos chamada Formiga Branca), nunca recuou ante a violência, a tortura, o derramamento de sangue e o homicídio puro e simples. Instaurou friamente entre nós o pragmatismo do crime. Institucionalizou a fraude, a manipulação e a batota generalizada em todos os planos da vida portuguesa. Manipulou e restringiu o sufrágio, excluindo dele os analfabetos, as mulheres e os padres. Perpetrou fraudes eleitorais sempre que pôde. Perseguiu da maneira mais radical e intolerante o clero católico, por vezes até ao espancamento e à morte. Levantou toda a espécie de obstáculos ao culto religioso e à liberdade de consciência. Cometeu as mais incríveis violências contra as pessoas. Apropriou-se do Estado, transformando-o em coutada pessoal do Partido Republicano Português…
Em 1915, Portugal deve ter sido um dos pioneiros na defesa do genocídio moderno. Na campanha militar que se desenrolava no Sul de Angola, as atrocidades são de pôr os cabelos em pé. Nas Actas das Sessões Secretas da Câmara dos Deputados e do Senado da República sobre a participação de Portugal na I Grande Guerra (ed. coordenada por Ana Mira, Lisboa, AR e Afrontamento, 2002), encontra-se o depoimento de um militar, segundo o qual "temos ordem para matar todo o gentio desde dez anos para cima" (p. 151). E os outros depoimentos testemunhais, ali reunidos de pp. 148 a 153, ilustram macabramente essa afirmação. Confrontado com esta situação no Parlamento, Afonso Costa foi peremptório: "Não nos deixemos mover por idealismos nem esqueçamos o conceito e impressão dos pretos perante respeitos humanitários que ele [orador] considera como fraqueza ou pusilanimidade" (op. cit., p. 115), ao que Brito Camacho respondeu que "civilizar com a navalha e a carabina não é humanitário nem científico. As chamadas raças inferiores são apenas raças atrasadas; não é possível civilizá-las, exterminando-as" (ibid., p. 117).
[…]
A Primeira República portuguesa foi um monumento de ignomínia. As comemorações em curso não podem escamotear esse facto e deveriam proporcionar aos portugueses uma visão altamente crítica desse período da nossa história. Historiadores como Vasco Pulido Valente e Rui Ramos já o têm feito e bem. Mas nunca será demais insistir.
Tem sido frequentemente observado que, na monarquia constitucional, o liberalismo foi abrindo a porta a uma dimensão republicana. De facto assim foi. A partir da estabilização ocorrida em meados do século XIX, viveu-se em Portugal uma era "republicana" de tolerância e de fruição das liberdades que só havia de extinguir-se pela força em 1910. Isto, apesar de todos os problemas que o constitucionalismo português foi tendo, da fragilidade do Estado e das suas instituições a uma catadupa de situações escandalosas e insustentáveis, passando por políticas erráticas, incompetentes e contraditórias, crises políticas e sociais, buracos financeiros insolúveis, corrupção, tráfico de influências, caciquismo, analfabetismo, atraso crónico e generalizado face à Europa e outras maleitas graves.
A monarquia constitucional acabou por cair de podre. Afundou-se no fracasso geral das instituições e no desprestígio mais completo dos partidos. Perdeu o pé no entrechocar das rivalidades, despeitos, ajustes de contas e interesses inconfessáveis dos grandes figurões de um regime em que os republicanos já se encontravam instalados por "osmose" pacífica havia muito, enquanto a tropa, quando não conspirava, ia assobiando para o lado. Tudo isso foi assim. Mas nunca a monarquia constitucional em seis décadas cometeu crimes comparáveis aos que a República praticou em meia dúzia de anos.
As comemorações do centenário da República têm de falar desses crimes. Eles foram cometidos sob a batuta de uma das figuras mais sinistras da nossa história. Graças a Afonso Costa e aos seus apaniguados organizados em milícias de malfeitores, a Primeira República, activamente respaldada pela Carbonária (e, mais tarde, por uma confraria de assassinos chamada Formiga Branca), nunca recuou ante a violência, a tortura, o derramamento de sangue e o homicídio puro e simples. Instaurou friamente entre nós o pragmatismo do crime. Institucionalizou a fraude, a manipulação e a batota generalizada em todos os planos da vida portuguesa. Manipulou e restringiu o sufrágio, excluindo dele os analfabetos, as mulheres e os padres. Perpetrou fraudes eleitorais sempre que pôde. Perseguiu da maneira mais radical e intolerante o clero católico, por vezes até ao espancamento e à morte. Levantou toda a espécie de obstáculos ao culto religioso e à liberdade de consciência. Cometeu as mais incríveis violências contra as pessoas. Apropriou-se do Estado, transformando-o em coutada pessoal do Partido Republicano Português…
Em 1915, Portugal deve ter sido um dos pioneiros na defesa do genocídio moderno. Na campanha militar que se desenrolava no Sul de Angola, as atrocidades são de pôr os cabelos em pé. Nas Actas das Sessões Secretas da Câmara dos Deputados e do Senado da República sobre a participação de Portugal na I Grande Guerra (ed. coordenada por Ana Mira, Lisboa, AR e Afrontamento, 2002), encontra-se o depoimento de um militar, segundo o qual "temos ordem para matar todo o gentio desde dez anos para cima" (p. 151). E os outros depoimentos testemunhais, ali reunidos de pp. 148 a 153, ilustram macabramente essa afirmação. Confrontado com esta situação no Parlamento, Afonso Costa foi peremptório: "Não nos deixemos mover por idealismos nem esqueçamos o conceito e impressão dos pretos perante respeitos humanitários que ele [orador] considera como fraqueza ou pusilanimidade" (op. cit., p. 115), ao que Brito Camacho respondeu que "civilizar com a navalha e a carabina não é humanitário nem científico. As chamadas raças inferiores são apenas raças atrasadas; não é possível civilizá-las, exterminando-as" (ibid., p. 117).
[…]
Entre O PEC III e o Sócrates III?
(Paulo Guinote)
Há gente muito apressada na política. Na análise e na prática. E há quem confunda desejo e vontade com factos e realidade. Quem ache que o que acha ser correcto, certo e bom se transforma em coisa só por isso mesmo.
Os factos já deveriam ter desmentido estas crenças ingénuas e quem não percebo se não vê, não quer ver ou não consegue ver.
Posso estar eu redondamente enganado, até contra a minha vontade, mas começo a vislumbrar a hipótese de um Sócrates III, tamanhos são os erros de uma oposição e os medos de outra.
Todos aqueles que vaticinaram uma rápida queda do governo de Sócrates perante a investida que parecia imparável do PSD de Passos Coelho já tinham tempo para ter acalmado. Aliás, há quem se mantenha nervoso, mas certamente porque já percebeu que tantos passos em falso estão a deixar alguns entusiasmos demasiado visíveis antes de tempo. Ao contrário do que parecia inevitável, o PSD tropeçou em si mesmo, encostou-se às redes e arrisca-se a perder ou não ganhar um combate apenas porque o adversário, mesmo de rastos, ter sabido atirar-se para cima dele e imobilizá-lo.
Neste momento, o PSD é vítima de si mesmo e de uma equipa de estrategas e tácticos que mereciam ser despedidos com mais do que justa causa, de tão ingénuos ou displicentes. Ou então são imensamente desconhecedores do país onde vivem e do seu eleitorado. Em contrapartida, Sócrates deveria beijar o chão que pisam alguns dos seus consultores.
Neste momento, o PSD tem duas hipóteses: ou ser novamente, no caso do OE muleta do governo perante o país ou ser coerente e ser apresentado como causador de uma crise que pouco fez para que acontecesse, mas que conseguiu em poucos meses parecer que também é sua.
Cavaco Silva prefere um governo com Teixeira dos Santos a ministro das Finanças do que outro com uma equipa do tipo Nogueira Leite/Frasquilho. Pode não confiar em Sócrates, mas certamente prefere tê-lo amarrado e fragilizado pela situação actual em que as Finanças é que mandam e o PM faz os floreados (basta ver o que se passou na apresentação das medidas de austeridade…), do que ter de enfrentar um governo forte de um PSD em cuja direcção notoriamente não confia.
Quem pensa que Cavaco dissolverá o Parlamento mal ganhe as eleições para um segundo mandato é capaz de estar enganado. Mas mesmo que o faça, neste momento nada garante que o PS (com ou sem Sócrates, mas mais provavelmente com ele) não ficará à frente ou muito próximo do PSD, não existindo uma maioria absoluta à direita, como as sondagens insistem em demonstrar.
Aliás, é nisso que a oposição de esquerda também joga, receosa do timing de uma queda de Sócrates. PCP e Bloco apenas coreografam a agressividade para com o PS porque sabem que, havendo maioria PSD/CDS, as coisas ainda apertarão mais. Pelo que se limitam a ir pressionando, se possível nas ruas, mas nunca de forma a causar uma queda do governo. Quanto muito ligeiras inflexões de política, que é o máximo que podem esperar. O que podem ousar querer é, terminado o tango, que o PS lhes dê a mão num cenário de PS derrotado, mas maioria de esquerda no Parlamento.
[PCP e Bloco] Poderão querer forçar uma troca de liderança no PS, mas não querem que o PS seja claramente derrotado se isso significar uma maioria de direita.
E assim continuaremos, como temos estado há meses, num chove e não molha. E mesmo havendo eleições, a táctica errada do PSD ter sublinhado os seus traços liberais, encostando (teórica e retoricamente) o PS à esquerda na defesa de um pseudo-Estado Social em desagregação, em momento de grave crise, poderá levar a que Sócrates renasça de um modo que poucos poderiam prever há alguns meses.
E sim, pior do que o PEC III, será um Sócrates III, prometendo o TGV à esquerda em troca da sobrevivência política dele, mas à custa da falência do país, marcada ali para 2013-2014, no máximo 2015, quando isto passar a ser governado por um comissário europeu nascido para lá do Sena ou do Reno.
Mas, infelizmente, é o que me parece que pode vir a acontecer.
Parafraseando o que escrevi no outro dia, não é o facto de enfrentarmos um medíocre que faz de nós bons e muito menos excelentes.
E o excesso de confiança e erros de palmatória podem ser fatais.
E nesse caso, numa disputa entre coisas que podem parecer equivalentes nos méritos, num contexto de precariedade social e económica, perde quase sempre o desconhecido.
Cavaco só ganhou, em especial as maiorias, porque Soares tinha saído deixando o PS de rastos. E Guterres só ganhou porque Cavaco tinha saído deixando o PSD de rastos. E Durão Barroso ganhou mesmo à tirinha, porque Guterres tinha saído deixando o PS de rastos. E Sócrates ganhou porque Barroso tinha saído, deixando Santana a tomar conta do forte.
Se quem está não opta por bater com a porta, quem quer entrar, fica à espera. Pelo menos tem sido assim. Para inverter esta lógica era preciso mais do que temos visto por parte de quem estava à espera que Sócrates saísse pelo seu pé. O que notoriamente não fará.
Há gente muito apressada na política. Na análise e na prática. E há quem confunda desejo e vontade com factos e realidade. Quem ache que o que acha ser correcto, certo e bom se transforma em coisa só por isso mesmo.
Os factos já deveriam ter desmentido estas crenças ingénuas e quem não percebo se não vê, não quer ver ou não consegue ver.
Posso estar eu redondamente enganado, até contra a minha vontade, mas começo a vislumbrar a hipótese de um Sócrates III, tamanhos são os erros de uma oposição e os medos de outra.
Todos aqueles que vaticinaram uma rápida queda do governo de Sócrates perante a investida que parecia imparável do PSD de Passos Coelho já tinham tempo para ter acalmado. Aliás, há quem se mantenha nervoso, mas certamente porque já percebeu que tantos passos em falso estão a deixar alguns entusiasmos demasiado visíveis antes de tempo. Ao contrário do que parecia inevitável, o PSD tropeçou em si mesmo, encostou-se às redes e arrisca-se a perder ou não ganhar um combate apenas porque o adversário, mesmo de rastos, ter sabido atirar-se para cima dele e imobilizá-lo.
Neste momento, o PSD é vítima de si mesmo e de uma equipa de estrategas e tácticos que mereciam ser despedidos com mais do que justa causa, de tão ingénuos ou displicentes. Ou então são imensamente desconhecedores do país onde vivem e do seu eleitorado. Em contrapartida, Sócrates deveria beijar o chão que pisam alguns dos seus consultores.
Neste momento, o PSD tem duas hipóteses: ou ser novamente, no caso do OE muleta do governo perante o país ou ser coerente e ser apresentado como causador de uma crise que pouco fez para que acontecesse, mas que conseguiu em poucos meses parecer que também é sua.
Cavaco Silva prefere um governo com Teixeira dos Santos a ministro das Finanças do que outro com uma equipa do tipo Nogueira Leite/Frasquilho. Pode não confiar em Sócrates, mas certamente prefere tê-lo amarrado e fragilizado pela situação actual em que as Finanças é que mandam e o PM faz os floreados (basta ver o que se passou na apresentação das medidas de austeridade…), do que ter de enfrentar um governo forte de um PSD em cuja direcção notoriamente não confia.
Quem pensa que Cavaco dissolverá o Parlamento mal ganhe as eleições para um segundo mandato é capaz de estar enganado. Mas mesmo que o faça, neste momento nada garante que o PS (com ou sem Sócrates, mas mais provavelmente com ele) não ficará à frente ou muito próximo do PSD, não existindo uma maioria absoluta à direita, como as sondagens insistem em demonstrar.
Aliás, é nisso que a oposição de esquerda também joga, receosa do timing de uma queda de Sócrates. PCP e Bloco apenas coreografam a agressividade para com o PS porque sabem que, havendo maioria PSD/CDS, as coisas ainda apertarão mais. Pelo que se limitam a ir pressionando, se possível nas ruas, mas nunca de forma a causar uma queda do governo. Quanto muito ligeiras inflexões de política, que é o máximo que podem esperar. O que podem ousar querer é, terminado o tango, que o PS lhes dê a mão num cenário de PS derrotado, mas maioria de esquerda no Parlamento.
[PCP e Bloco] Poderão querer forçar uma troca de liderança no PS, mas não querem que o PS seja claramente derrotado se isso significar uma maioria de direita.
E assim continuaremos, como temos estado há meses, num chove e não molha. E mesmo havendo eleições, a táctica errada do PSD ter sublinhado os seus traços liberais, encostando (teórica e retoricamente) o PS à esquerda na defesa de um pseudo-Estado Social em desagregação, em momento de grave crise, poderá levar a que Sócrates renasça de um modo que poucos poderiam prever há alguns meses.
E sim, pior do que o PEC III, será um Sócrates III, prometendo o TGV à esquerda em troca da sobrevivência política dele, mas à custa da falência do país, marcada ali para 2013-2014, no máximo 2015, quando isto passar a ser governado por um comissário europeu nascido para lá do Sena ou do Reno.
Mas, infelizmente, é o que me parece que pode vir a acontecer.
Parafraseando o que escrevi no outro dia, não é o facto de enfrentarmos um medíocre que faz de nós bons e muito menos excelentes.
E o excesso de confiança e erros de palmatória podem ser fatais.
E nesse caso, numa disputa entre coisas que podem parecer equivalentes nos méritos, num contexto de precariedade social e económica, perde quase sempre o desconhecido.
Cavaco só ganhou, em especial as maiorias, porque Soares tinha saído deixando o PS de rastos. E Guterres só ganhou porque Cavaco tinha saído deixando o PSD de rastos. E Durão Barroso ganhou mesmo à tirinha, porque Guterres tinha saído deixando o PS de rastos. E Sócrates ganhou porque Barroso tinha saído, deixando Santana a tomar conta do forte.
Se quem está não opta por bater com a porta, quem quer entrar, fica à espera. Pelo menos tem sido assim. Para inverter esta lógica era preciso mais do que temos visto por parte de quem estava à espera que Sócrates saísse pelo seu pé. O que notoriamente não fará.
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
Ponha os olhos em Evo Morales
Agora imaginem que era CS ou mesmo JS I e... sei lá! o PC, o PP, o FL ou o JS II !...
Ninguém vai festejar os 100 anos do Facebook
O 5 de Outubro que implantou a República em Portugal já foi há cem anos. Não conheço ninguém que conheça alguém que tenha sido testemunha desta revolução que nos fez gastar dez milhões de euros para a comemorar. Não deixa de ser engraçado ver e ouvir políticos como Cavaco e Sócrates a falarem de uma revolução em que não participaram e a festejarem a revolução de um punhado de pessoas que não conheceram.
Na TSF ouvi ontem também anunciar o discurso de Cavaco como o último que ele faria no 5 de Outubro. Sendo certo que isso pode não ser verdade, se Cavaco se recandidatar como parece óbvio, já é menos seguro que os discursos do 5 de Outubro se mantenham, o que pode vir a dar razão ao comentário da TSF.
O que provavelmente já não acontecerá daqui a cem anos é que alguém se lembre de comemorar os 200 anos da implantação da República. Pelo menos gastando 10 milhões de euros ou o equivalente à época e sobretudo nunca se falará de gente desconhecida como se fossem nossos colegas de café ou de escritório.
Mas a revolução que hoje gostava de trazer a esta crónica é a das redes sociais, com o Facebook a dar a cara por ela. É uma mudança de "regime" que tem muito menos anos do que a República em Portugal, mas vai mudar muito mais a vida dos portugueses em muito menos tempo.
Contrariamente à maioria dos meus amigos e familiares, nunca tive página no hi5, não quero que me sigam no Twitter e não estou no Facebook. Será que isto faz de mim um " bicho-do-mato" ou um "bota-de-elástico", nos tempos que correm? Mesmo para os que não conhecem o significado destas expressões um pouco mais antigas, a resposta que tenho para lhes dar é negativa.
Em termos pessoais (e não profissionais), o Facebook e o Twitter fazem-me tanta falta como ainda hoje uma viola num enterro e se há modernidade a que não adiro é aquela que rebenta com a minha privacidade e estilhaça a minha liberdade.
Agora que a TVI voltou aos reality shows é bom que não seja segredo para ninguém que a dita revolução das redes sociais é uma espécie de "big brother" de trazer por casa, a que todos podem aceder e em que todos podem participar, sem cachets nem prémios.
Que uma acompanhante de luxo ou um político no início da carreira resolvam expor as suas vidas à procura de pagarem dívidas ou ganharem notoriedade, não aceito, mas compreendo. O que já não aceito nem compreendo é que cada vez mais portugueses se disponham a dar nota pública do que fazem e com quem fazem, do que sofrem e com quem sofrem, onde vão e com quem vão, sem qualquer tipo de recompensa que não seja a total exposição da sua vida pessoal.
Resta-me esperar que a impunidade com que esta gente envolve terceiros inocentes que com eles se cruzam na ignorância das consequências tenha os dias contados. Como é costume nestas coisas, vai ser preciso que alguém morra para que a regulamentação nasça.
Não vou estar cá para ver, mas aposto que daqui a cem anos ninguém gastará um cêntimo para comemorar a "revolução" do Facebook.
Manuel Serrão - JN
Nota: eu, como o Manuel Serrão e "contrariamente à maioria dos meus amigos e familiares, nunca tive página no hi5, não quero que me sigam no Twitter e não estou no Facebook".
terça-feira, 5 de outubro de 2010
100 anos de República
República das bananas ou dos bananas?
100 escolas inauguradas ou reinauguradas. E quantas fecharam?
"O Zé-povinho olha para um lado e para o outro e fica... como sempre... na mesma".
100 escolas inauguradas ou reinauguradas. E quantas fecharam?
"O Zé-povinho olha para um lado e para o outro e fica... como sempre... na mesma".
A medidazita que faltou
Ele é vogal de uma dessas entidades reguladoras portuguesas - insisto, não é ministro de país rico, é um vogal de entidade reguladora de país pobre - e foi de Lisboa ao Porto a uma reunião.
Foi de avião, o que nem me parece um exagero, embora seja pago pelos meus impostos. Se ele tem uma função pública é bom que gaste o que é eficaz para a exercer bem: ir de avião é rápido e pode ser económico.
Chegado ao Aeroporto de Sá Carneiro, o homem telefonou: "Onde está, sr. Martins?"
O Martins é o motorista, saiu mais cedo de Lisboa para estar a horas em Pedras Rubras. O vogal da entidade reguladora não suporta a auto-estrada A1.
O Martins foi levar o senhor doutor à reunião, esperou por ele, levou-o às compras porque a Baixa portuense é complicada, e foi depositá-lo de volta a Pedras Rubras.
O Martins e o nosso carro regressaram pela auto-estrada a Lisboa.
O vogal fez contas pelo relógio e concluiu que o Martins não estaria a tempo na Portela. Encolheu os ombros e regressou a casa de táxi, o que também detestava, mas há dias em que se tem de fazer sacrifícios.
Na sua crónica nesta edição do DN, o meu camarada Jorge Fiel diz que o Estado tem 28 793 automóveis. Nunca perceberei por que razão os políticos não sabem apresentar medidas duras. Sócrates, ontem, ter-me-ia convencido se tivesse também anunciado que o Estado passou a ter 28 792 automóveis.
(Ferreira Fernandes)
segunda-feira, 4 de outubro de 2010
O labirinto
(Rafael Barbosa)
Nem sempre o homem afina, mas, desta vez, acho que sim.
1- Na verdade, e apesar das certezas que gostamos de afirmar, sentimo-nos perdidos. Insultamos Sócrates ou Teixeira dos Santos por serem os executores das más notícias do momento, mas por aí nos ficamos, confusos. Porque tudo se reduz a uma conta simples: há anos que gastamos mais do que produzimos, deixaram de nos emprestar dinheiro, estamos falidos e sem alternativa. Mas depois começamos a ver e ouvir os nossos notáveis oligarcas aplaudindo as medidas de austeridade com a mesma convicção com que nos impingiram decisões erradas. E vem-nos à memória que foram eles que nos governaram nas últimas três décadas, foram eles que nos trouxeram até este pântano político e económico. Aqui chegados, percebemos a complexidade do problema em que estamos metidos. Esta gente não tem, nunca teve, um fio de Ariadne. Não é com estes que vamos encontrar a saída do labirinto.
2. O país está mergulhado numa espécie de estupor. Mas mesmo entre as piores tormentas nos arrancam sorrisos, ainda que sejam amarelos. Por exemplo, quando Teixeira dos Santos se viu obrigado a corrigir Sócrates, perante câmaras e microfones, a propósito dos cortes de salários na Função Pública, que ali, em directo, no final do Conselho de Ministros, passaram de provisórios a definitivos. Ou quando, no segundo capítulo desta revista à portuguesa decadente, já no Parlamento, o primeiro-ministro nos surpreendeu com a sua feroz oposição à compra de submarinos. E simulou um novo imposto sobre a Banca. O novo paladino da esquerda revolucionária fez com que Francisco Louçã parecesse um pequeno-burguês acomodado.
3. O funcionário público é o professor de Matemática do nosso filho, que tanto admiramos pela metodologia e pelo empenho. Será justo castigá-lo com um corte salarial de 5%?
O funcionário público é o senhor que recolhe o lixo de madrugada, chova ou faça frio, garantindo a higiene das nossas ruas e a nossa saúde pública. Será avisado despedi-lo apenas porque trabalha a recibos verdes?
O funcionário público é o médico que descobre o que nos aflige e nos ajuda a superar as maleitas do corpo. Será que queremos chateá-lo com um corte de 5% no salário?
O funcionário público é a senhora que recebe as crianças manhã cedo no portão do jardim-de-infância, que as abraça quando choram, que as vigia no recreio. Será boa ideia mandá-la embora?
O funcionário público é o polícia que deu o peito às balas quando aquele gangue violento atacou o banco. Será sensato sacar-lhe 5% do salário?
O funcionário público é o paramédico que conduz a ambulância a 100 à hora por ruas e ruelas, só para vir ao nosso encontro e do nosso coração falido. Será avisado dispensá-lo só porque não tem vínculo?
É uma chatice, isto de os funcionários públicos não caberem todos no fato de velhos rezingões, incompetentes, feios e mal vestidos.
===============================
Mas ele veste Armani, digo eu...
Nem sempre o homem afina, mas, desta vez, acho que sim.
1- Na verdade, e apesar das certezas que gostamos de afirmar, sentimo-nos perdidos. Insultamos Sócrates ou Teixeira dos Santos por serem os executores das más notícias do momento, mas por aí nos ficamos, confusos. Porque tudo se reduz a uma conta simples: há anos que gastamos mais do que produzimos, deixaram de nos emprestar dinheiro, estamos falidos e sem alternativa. Mas depois começamos a ver e ouvir os nossos notáveis oligarcas aplaudindo as medidas de austeridade com a mesma convicção com que nos impingiram decisões erradas. E vem-nos à memória que foram eles que nos governaram nas últimas três décadas, foram eles que nos trouxeram até este pântano político e económico. Aqui chegados, percebemos a complexidade do problema em que estamos metidos. Esta gente não tem, nunca teve, um fio de Ariadne. Não é com estes que vamos encontrar a saída do labirinto.
2. O país está mergulhado numa espécie de estupor. Mas mesmo entre as piores tormentas nos arrancam sorrisos, ainda que sejam amarelos. Por exemplo, quando Teixeira dos Santos se viu obrigado a corrigir Sócrates, perante câmaras e microfones, a propósito dos cortes de salários na Função Pública, que ali, em directo, no final do Conselho de Ministros, passaram de provisórios a definitivos. Ou quando, no segundo capítulo desta revista à portuguesa decadente, já no Parlamento, o primeiro-ministro nos surpreendeu com a sua feroz oposição à compra de submarinos. E simulou um novo imposto sobre a Banca. O novo paladino da esquerda revolucionária fez com que Francisco Louçã parecesse um pequeno-burguês acomodado.
3. O funcionário público é o professor de Matemática do nosso filho, que tanto admiramos pela metodologia e pelo empenho. Será justo castigá-lo com um corte salarial de 5%?
O funcionário público é o senhor que recolhe o lixo de madrugada, chova ou faça frio, garantindo a higiene das nossas ruas e a nossa saúde pública. Será avisado despedi-lo apenas porque trabalha a recibos verdes?
O funcionário público é o médico que descobre o que nos aflige e nos ajuda a superar as maleitas do corpo. Será que queremos chateá-lo com um corte de 5% no salário?
O funcionário público é a senhora que recebe as crianças manhã cedo no portão do jardim-de-infância, que as abraça quando choram, que as vigia no recreio. Será boa ideia mandá-la embora?
O funcionário público é o polícia que deu o peito às balas quando aquele gangue violento atacou o banco. Será sensato sacar-lhe 5% do salário?
O funcionário público é o paramédico que conduz a ambulância a 100 à hora por ruas e ruelas, só para vir ao nosso encontro e do nosso coração falido. Será avisado dispensá-lo só porque não tem vínculo?
É uma chatice, isto de os funcionários públicos não caberem todos no fato de velhos rezingões, incompetentes, feios e mal vestidos.
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Mas ele veste Armani, digo eu...
De pé, ó vítimas da fome
Manuel António Pina, no seu (habitual) melhor:
O deputado do PS Ricardo Gonçalves quer que a cantina da AR abra "à hora de jantar" para acudir aos deputados, que "são de longe os mais atingidos na carteira" pelas medidas de austeridade, já "quase não [tendo] dinheiro para comer". [Ah! Ah! Ah! Desculpem a interrupção da leitura, mas não me pude conter como a Joaquina]
Ao CM, Ricardo Gonçalves queixou-se de que, além de uns miseráveis 3700 euros de vencimento, apenas recebe mais "60 euros de ajudas de custos por dia" para "viagens, alojamento e comer fora".
Compreende-se o seu desalento. O deputado Gonçalves deixou uma próspera carreira de professor para, respondendo ao chamamento cívico, passar a deputar na AR, e agora tem que se governar com 3700 euros por mês mais 60 euros por dia para "viagens, alojamento e comer fora". [Ah! Ah! Ah! Continuo a não me puder conter!...]
Não surpreende que Teixeira dos Santos ande a "dormir mal" e que Sócrates tenha, como confessou na AR, "apertos de coração".
Deputados esfomeados é coisa horrível de ver (dir-se-á que Ricardo Gonçalves não representa a deputação, mas o facto de Maria José Nogueira Pinto lhe haver em tempos chamado "palhaço" confere-lhe desde logo ampla representatividade).
Justifica-se que, no próximo PEC, o Governo poupe um pouco mais no subsídio de desemprego e no Rendimento Social de Inserção. Ou nas pensões, cujo valor médio já anda pelos 397,17 euros, o que faz dos pensionistas "de longe os menos atingidos na carteira".
Com essa redução da despesa poder-se-á servir uma ceia de Natal condigna na cantina da AR
O deputado do PS Ricardo Gonçalves quer que a cantina da AR abra "à hora de jantar" para acudir aos deputados, que "são de longe os mais atingidos na carteira" pelas medidas de austeridade, já "quase não [tendo] dinheiro para comer". [Ah! Ah! Ah! Desculpem a interrupção da leitura, mas não me pude conter como a Joaquina]
Ao CM, Ricardo Gonçalves queixou-se de que, além de uns miseráveis 3700 euros de vencimento, apenas recebe mais "60 euros de ajudas de custos por dia" para "viagens, alojamento e comer fora".
Compreende-se o seu desalento. O deputado Gonçalves deixou uma próspera carreira de professor para, respondendo ao chamamento cívico, passar a deputar na AR, e agora tem que se governar com 3700 euros por mês mais 60 euros por dia para "viagens, alojamento e comer fora". [Ah! Ah! Ah! Continuo a não me puder conter!...]
Não surpreende que Teixeira dos Santos ande a "dormir mal" e que Sócrates tenha, como confessou na AR, "apertos de coração".
Deputados esfomeados é coisa horrível de ver (dir-se-á que Ricardo Gonçalves não representa a deputação, mas o facto de Maria José Nogueira Pinto lhe haver em tempos chamado "palhaço" confere-lhe desde logo ampla representatividade).
Justifica-se que, no próximo PEC, o Governo poupe um pouco mais no subsídio de desemprego e no Rendimento Social de Inserção. Ou nas pensões, cujo valor médio já anda pelos 397,17 euros, o que faz dos pensionistas "de longe os menos atingidos na carteira".
Com essa redução da despesa poder-se-á servir uma ceia de Natal condigna na cantina da AR
domingo, 3 de outubro de 2010
Ainda a propósito dos 400 milhões brandidos pelo MST e outros ignorantes
[...]
O aumento dos encargos com o pessoal por parte do ME deriva dos efeitos do fim do 1º ciclo de avaliação do desempenho. Cumpridas as formalidades que o ME/Governo/PM tanto fizeram questão de sublinhar, os docentes em condições de progredir, progrediram.
Esse encargo estava previsto no OE para 2010, pois decorria naturalmente da lei que o ME/Governo/PM tanto fizeram questão em fazer cumprir.
Essas progressões não decorreram, em qualquer momento, de nenhum acordo. Até a apreciação intercalar decorre do 270/2009 e não de nenhuma legislação de 2010.
Paradoxalmente, foi o PSD – ao não alinhar com a suspensão da ADD e a salvar politicamente o Governo no Parlamento – a viabilizar estas progressões. Se a ADD tivesse sido suspensa, as progressões ficariam inviabilizadas, por não cumprimento do 1º ciclo de avaliação.
Pelo que, desculpem-me lá, nem PS, nem PSD, ou os seus satélites, podem agora culpar os professores por qualquer derrapagem na despesa pública com algo em que concordaram em Novembro de 2009 e com encargos previstos no OE original para 2010.
Isto ficou claro, ou anda por aí alguém com alguma desvinculação cognitiva?
(Paulo Guinote)
O aumento dos encargos com o pessoal por parte do ME deriva dos efeitos do fim do 1º ciclo de avaliação do desempenho. Cumpridas as formalidades que o ME/Governo/PM tanto fizeram questão de sublinhar, os docentes em condições de progredir, progrediram.
Esse encargo estava previsto no OE para 2010, pois decorria naturalmente da lei que o ME/Governo/PM tanto fizeram questão em fazer cumprir.
Essas progressões não decorreram, em qualquer momento, de nenhum acordo. Até a apreciação intercalar decorre do 270/2009 e não de nenhuma legislação de 2010.
Paradoxalmente, foi o PSD – ao não alinhar com a suspensão da ADD e a salvar politicamente o Governo no Parlamento – a viabilizar estas progressões. Se a ADD tivesse sido suspensa, as progressões ficariam inviabilizadas, por não cumprimento do 1º ciclo de avaliação.
Pelo que, desculpem-me lá, nem PS, nem PSD, ou os seus satélites, podem agora culpar os professores por qualquer derrapagem na despesa pública com algo em que concordaram em Novembro de 2009 e com encargos previstos no OE original para 2010.
Isto ficou claro, ou anda por aí alguém com alguma desvinculação cognitiva?
(Paulo Guinote)
A Ministra da Educação e as Novas Tecnologias de Informação
“Portugal é um país traduzido do francês em calão” (Eça de Queiroz, 1845-1900)
Foi com declarado estupor que acabei de ler a notícia saída hoje no Público, intitulada “Tudo o que os alunos devem saber no final de cada ciclo”, que pressagia o desinteresse em estabelecer programas escolares, devidamente estruturados pedagógica e cientificamente, e o fim de exames sérios que avaliem no final de cada ciclo escolar aquilo que os alunos verdadeiramente sabem numa escola que tem pecado por um hedonismo exagerado que tornará o nosso ensino regular em “Novíssimas Oportunidades”, a partir já do ensino pré-escolar.
Assim, a senhora ministra da Educação não pára de surpreender o país com medidas que anuncia com candura para um desejável ensino de qualidade. Através da caixa que mudou o mundo, depois de se congratular com o facto dos nossos escolares saberem que o dia tem 24 horas, surge agora com várias medidas que mudarão o mundo da nossa escola, com o rentabilizar do negócio das Tecnologias de Informação e Comunicação a partir do ensino do fim do pré-escolar (por volta dos cinco anos de idade), como sejam jogar no computador, aceder a um programa ou página da internet, saber jogar ou desenhar, bem como “ligar ou desligar o computador” (como se pudesse aceder à internet sem saber ligar o computador!).
Agora o que me mete impressão maior, se bem interpretei a notícia supra citada, é o facto de apesar “a criança não saber ler, nem escrever aceder a um programa ou página da internet". Para olhar para eles (programa e página) " como boi para palácio", como é uso no dizer popular? Mas de mal o menos, pelo menos o aluno saberá “pegar correctamente num livro”. Pegar correctamente num livro, para não o agarrar por uma das suas páginas rasgando-a?
Todavia, saúda-se aqui o “soberaníssimo bom senso” (Antero) da possível não aplicação destas medidas por não serem documentos obrigatórios. Já agora, a partir de que idade se deverá saber utilizar o fax? Ou qual as metas a alcançar no fim dos ensino secundário em Inglês que permita ao indivíduo com um curso superior de natureza técnica discursar em universidades de língua anglo-saxónica sem se tornar numa espécie de tatebitates?
Em Portugal, no domínio de uma educação que produz “analfabetos às pazadas”, para utilizar uma feliz expressão de Medina Carreira, procura-se inspiração em países como a Austrália, Finlândia, Nova Zelândia, Reino Unido, República da Coreia e EUA, como quem encomenda um carro de corrida fórmula 1 para ser guiado por quem acaba de tirar a carta de condução depois de chumbos consecutivos. Mas até isto faz sentido num país em que os grandes planos orçamentais, por vezes, se assemelham a verdadeiras contas de merceeiro. Ou até pior!
O próprio Eça nos deu conta do costume nacional de substituir as ideias originais por cópias grosseiras, quando escreveu: “Aqui importa-se tudo: Leis, ideias, filosofias, teorias, assuntos, estéticas, ciências, estilos, indústrias, modas, maneiras, pilhérias, tudo vem em caixotes pelo paquete. A civilização custa-nos caríssimo, com os direitos de Alfândega: e é em segunda mão, não foi feita para nós, fica-nos curta nas mangas…”
Estamos no dia 3 de Outubro do ano da graça de 2010, ainda a meses, portanto, das pilhérias carnavalescas do novo ano. Mas tudo bem. Se se antecipam as medidas de austeridade para o ano em curso, por que não antecipar o corso carnavalesco de um ensino que não ensina já para este ano lectivo?
Rui Baptista (in De Rerum Natura)
Aquele que sofre por nós
Coitado do eng. Sócrates. A dra. Ana Gomes, conhecida pelo fervor humanitário, já avisou ser "tempo de todos os socialistas se unirem, estoicamente, em apoio ao Primeiro Ministro (sic)". Porquê? Por causa da "agrura de ter de decretar medidas durissimas (sic) e de arrostar com incompreensão e impopularidade". E o dr. Almeida Santos, embora com menos erros ortográficos, vai mais longe ao pedir o contributo de todos os portugueses: "O povo", proclamou a eminência, "tem que sofrer as crises como o Governo as sofre".
É o mínimo. Ao contrário do que alguns sugerem, não são os cidadãos anónimos as únicas vítimas da austeridade que o eng. Sócrates e os seus subordinados reforçam de quatro em quatro meses. É verdade que uma parcela crescente da população está desempregada, e é verdade que uma parcela crescente dos rendimentos da população ainda empregada acaba removida pelo Estado. Mas esses ligeiros percalços não se comparam à angústia de quem os anuncia em horário nobre televisivo. Impor sacrifícios aos outros é uma tarefa dolorosa, e dado que o eng. Sócrates e o dr. Teixeira dos Santos começam a repeti-la com regularidade, a dor que sentem deve roçar o insuportável.
Principalmente se não se tem culpa daquilo que motivou os sacrifícios. E o Governo, conforme a dra. Ana Gomes explica com a lucidez habitual, não tem culpa nenhuma da situação actual: a culpa é da "selvajaria da lei dos mercados" e de uma União Europeia "dominada pela direita neo-liberal".
Claro que sim. A mim só me resta perceber quando é que a "direita neo-liberal" tomou conta da UE e, para lá do natural horror dos investidores internacionais, qual o nexo entre a "selvajaria" dos "mercados" e o desnorte das contas caseiras.
Talvez isso inocente um ministro das Finanças que, à primeira e à segunda vistas, é um desastre financeiro e, a julgar pelos truques, revisões, subterfúgios e ocultações, uma tristeza ética. E talvez isso legitime um primeiro-ministro que, de atoarda em atoarda, aterrou na crise agora, embora prometa há dois anos combater a crise com as medidas opostas às medidas agora prometidas para combater a crise.
Na misteriosa retórica governamental, a crise tanto se resolve através do esbanjamento quanto através da contenção. Às vezes através de ambos em simultâneo. A diferença é que, fora da retórica, apenas o esbanjamento é autêntico. O modo como lida com a contenção aproxima o eng. Sócrates de George Costanza, de Seinfeld, cujo sonho consistia em fingir ser arquitecto - e não em sê-lo de facto. O sonho do eng. Sócrates é fingir que corta na despesa pública. E cortar realmente nos ganhos privados.
Sucede que, iluminado por convicções que mudam a cada instante, o eng. Sócrates decreta essas coisas com um, cito, "aperto no coração". Donde seria de péssimo gosto que a plebe colocasse as suas ínfimas agruras à frente dos problemas cardíacos de Sua Excelência. A hora não é de resmungos: é de empatia para com um estadista que, patriótica e condoidamente, resignou-se a gastar o nosso dinheiro. Não custa nada, excepto dinheiro. Vamos todos, todos, todos apoiar estoicamente o eng. Sócrates, partilhar um pedacinho do seu sofrimento e, na impossibilidade de que termine o mandato com dignidade, rezar para que o termine depressa.
(Alberto Gonçalves - DN)
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
Cartas viciadas
Na deplorável partida de póker em que se tornou a luta política, a aposta de Passos Coelho no extremar de posições em relação ao Orçamento seguida da ameaça de Sócrates de se demitir no caso de ele não ser aprovado, revelou o óbvio: que Coelho fizera "bluff" e não iria pagar para ver.
Os inúmeros "bluffs" de Sócrates anunciando, dia sim, dia não, o "fim da crise" (ainda em Maio Portugal era "o primeiro país a sair da recessão") não têm sido menos desastrados. Os aumentos da Função Pública há um ano, em véspera de eleições, lembram Beau Geste no deserto, cercado e acossado pela sede, lavando desafiadoramente as botas com o último cantil de água. A crise não é, contudo, tão impressionável como os "tuaregs",
e Sócrates exige agora a devolução, com juros, desses aumentos.
Ao mesmo tempo opta pela que, em Março, era a solução "mais fácil", o do aumento dos impostos, e por receitas extraordinárias como as que criticou a Ferreira Leite.
Precisa de 4,5 mil milhões para levar o défice de 7,3 a 4,6 %. Tanto quanto enterrou no BPN e BPP. Como confiar o nosso dinheiro (e o nosso futuro) a jogadores destes?
Manuel António Pina (JN)
Os inúmeros "bluffs" de Sócrates anunciando, dia sim, dia não, o "fim da crise" (ainda em Maio Portugal era "o primeiro país a sair da recessão") não têm sido menos desastrados. Os aumentos da Função Pública há um ano, em véspera de eleições, lembram Beau Geste no deserto, cercado e acossado pela sede, lavando desafiadoramente as botas com o último cantil de água. A crise não é, contudo, tão impressionável como os "tuaregs",
e Sócrates exige agora a devolução, com juros, desses aumentos.
Ao mesmo tempo opta pela que, em Março, era a solução "mais fácil", o do aumento dos impostos, e por receitas extraordinárias como as que criticou a Ferreira Leite.
Precisa de 4,5 mil milhões para levar o défice de 7,3 a 4,6 %. Tanto quanto enterrou no BPN e BPP. Como confiar o nosso dinheiro (e o nosso futuro) a jogadores destes?
Manuel António Pina (JN)
Facilitismo e aldrabice
Quem recentemente acertou na mouche ao falar sobre a crise financeira e económica que o país atravessa foi Ernâni Lopes, o ex-ministro das Finanças e Plano do Governo do Bloco Central, dirigido por Mário Soares, que em 1983 recebeu o FMI: «Não tem a ver com taxa de juro, oferta de moeda nem finanças públicas. Tem a ver com qualquer coisa mais importante. Os problemas resolvem-se com estudo e trabalho e não com facilitismo e aldrabice».
Fê-lo pouco antes do anúncio pelo governo do PS dirigido por José Sócrates de medidas de aumento de impostos para todos e de redução de vencimentos dos trabalhadores da função pública. As palavras do ex-ministro não podiam ser mais certeiras. Com efeito, não foi há muito tempo que o IVA desceu e os salários subiram, por mera conveniência eleitoral, numa altura em que as crises nacional e internacional já eram mais do que visíveis (a primeira, para mal dos nossos pecados, mais antiga do que a segunda). O governo minoritário que resultou das eleições continuou teimosamente a negar a realidade. Foi facilitando o mais que pôde. E foi aldrabando até mais não poder.
Por pressão externa e não por convicção interna, anunciou um PEC 1, depois um PEC 2 e agora um PEC 3, uma vez que a dívida continuava a aumentar. Num mundo em crise os outros bem podiam fazer de formiga, com a Grécia, a Irlanda e a Espanha a diminuírem os salários, que nós continuávamos a fazer de cigarra, como se o crédito fosse ilimitado. De facto, o mundo mudou. Mas o nosso Governo, contrariamente ao que se impunha, não mudou, e não fez a tempo o que era preciso fazer, que era estudar o défice e trabalhar para o diminuir. Agora, tarde e a más horas, parece ter acordado. E o Presidente do PS, António de Almeida Santos, que tinha sido colega de Ernâni Lopes no governo do Bloco Central (lembram-se de não se poder sair do país com mais de sete contos?), não encontrou melhor justificação para a mais recente ida do Governo aos bolsos dos contribuintes do que dizer que «o povo tem que sofrer as crises como o Governo as sofre». Se o povo não sabia, ficou enfim a saber que tem de partilhar as crises do Governo...
E o que diz ao PEC 3 o PSD, que tinha assinado o PEC 2 numa quase reedição do Bloco Central? O seu porta-voz António Nogueira Leite, de quem se fala para ministro das Finanças (fez o tirocínio como secretário de Estado das Finanças de Guterres), foi tudo menos coerente e credível. Embora defendendo os cortes nos salários, pediu com candura ao Governo para “reconsiderar o aumento do IVA, porque não é bom para as famílias". A diminuição dos rendimentos salariais é, para ele, boa para as famílias. Estas, encolhidas pelos apertos de cinto, continuarão decerto a sofrer as crises, mesmo que mude o governo que as sofre. E não têm grande esperança que o facilitismo e a aldrabice acabem se houver uma mudança governamental.
Poderia ser de outro modo? Dificilmente poderia. Uma sociedade não pode ser melhor do que a escola que a molda. Facilitismo, o termo que tão bem se adequa à política em geral, é também o certo para designar a política escolar, também ela de Bloco Central. Mostra-o, por exemplo, o caso do aluno que entrou na Universidade, com 20 valores, pela porta do cavalo das Novas Oportunidades. E aldrabice é a palavra justa para descrever uma situação em que se passam diplomas a certificar sabedoria e competências a quem é manifestamente ignorante e incapaz. Uma aldrabice pegada, como cada vez é mais claro.
Dei-me conta outro dia de que a palavra aldrabar, de origem árabe, não é conhecida no Brasil. Mas a prática é. Mário Pratas, o autor do dicionário de português europeu para brasileiros “Schifaizfavoire” (Editora Globo, 1993; o título deriva do modo como se chama entre nós um empregado de mesa), comenta: “Depois de morar algum tempo em Portugal você começa a entender de onde veio essa nossa mania de levar vantagem, de dar golpinhos, de enganar o próximo, de tirar proveito das situações. Está certo que os brasileiros aperfeiçoaram a aldrabice...”
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